Moacir Gadotti: Perspectivas da Educação Diante das Ameaças à Democracia

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O  Observatório Nacional da Inclusão e Diversidade na Educação – DIVERSIFICA promoveu na manhã  do dia 21 de outubro de 2016 um momento histórico e também muito agradável. Não é todo o dia que temos numa mesma atividade  o movimento estudantil lutando por melhorias na educação,  Elenir falando sobre o Programa Todos pela Alfabetização – TOPA, Clóvis Esequiel, principal  liderança da comunidade do Recôncavo no movimento de luta pela UFRB, coordenando os trabalhos, Almerico abordando com maestria os desafios do ensino médio e, por fim,  uma magistral  Conferência de Moacir Gadotti.

 

 

 

O Sucesso Sutil de um Blog

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“Não é a montanha que conquistamos, mas nós mesmos!”
Edmund Hillary, primeiro alpinista a escalar o Monte Everest, 1953.

Dia 17 de agosto de 2016 comecei as atividades do blog “paulonacif.com.br”. A ideia é construir um espaço sobre educação e diversidade, tema caro na minha trajetória de vida e área onde espero poder contribuir cada vez mais.

Desde o final de setembro começamos a monitorar via o Google Analytics o impacto do blog. Considerando que esse blog tem intenções modestas e como princípio ser uma atividade prazerosa e sem grande impacto no meu tempo já exíguo, confesso que fico impressionado com os números que o Google Analytics revela nesses dois meses: são onze mil visualizações, em 45 países e 388 cidades de todo o mundo. Chegamos a ter 3.000 acessos em apenas um dia e picos em torno de 500 acessos. Vejam os gráficos abaixo. Vale registrar que Taxa de rejeição no Google Analytics é o percentual de sessões de uma única página, ou seja, sessões nas quais a pessoa saiu do  site acessando apenas uma página. Isso é o que se espera: a maior parte das pessoas entrará no blog para ler o último post; poucas pessoas vão  ficar navegando em várias páginas num blog com a característica do nosso, assim, a nossa taxa de rejeição,  é na verdade, um bom indicativo.

Parece-me que isso demonstra acima de tudo a vontade das pessoas acessarem um espaço de debates na área da educação para o desenvolvimento de novos conceitos e novos caminhos para a ampliação do respeito à diversidade do nosso País!

Não posso esquecer de agradecer à paciência de César Velame que me ensina tudo sobre esse mundo da internet, bem como aos incentivos de Renato Luz e Aquilino. Valeu amigos!

É evidente que gostaríamos de contemplar os nossos seguidores com muito mais ideias e diversidade mas já estamos no nosso limite, pelo menos por enquanto. Seguiremos nesse caminho. Tem sido muito prazeroso e gratificante essa interação com vocês.

Que bom que você está por aqui. Muito obrigado!

Paulo Gabriel Soledade Nacif

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Secretário Jerônimo Rodrigues Busca Unidade para Avançar na Política de Territórios

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“A disputa do projeto nacional de desenvolvimento nos chama à responsabilidade!” Jerônimo Rodrigues

Nessa semana, com a realização da VI Feira Baiana da Agricultura Familiar e Economia Solidária (FEBAFES), vários encaminhamentos da política territorial da Bahia serão definidos. Jerônimo Rodrigues, Secretário de Desenvolvimento Rural do Estado da Bahia, cumprindo o seu papel de liderança da política de desenvolvimento territorial da Bahia, antecipa-se, demonstrando preocupação com o  momento histórico que o Brasil vive. Foi nesse sentido que ele encaminhou uma mensagem para os protagonistas  da política territorial baiana e particularmente à Coordenação Estadual dos Territórios de Identidade da Bahia (CET). Como sei que muitos interessados na Política de Territórios de Identidade da Bahia são leitores desse blog, considerei relevante publicá-la aqui. É certo que a Política de  Territórios de Identidade da Bahia vive um momento crucial, na medida em que se tornou referência para o Brasil e para o mundo e, por isso, precisa demonstrar capacidade de se reinventar e continuar tendo protagonismo para o desenvolvimento sustentável da Bahia, notadamente pela articulação das políticas sociais, econômicas e ambientais.

Um Apelo em Momento de Imprescindível Unidade  (um pedido à CET)

O Governador Jaques Wagner abriu a história das políticas públicas  territoriais para o Estado da Bahia. Nessa mesma linha, o Governador Rui Costa, tem feito o papel de ampliar, qualificar e consolidar a política de desenvolvimento territorial.

A Coordenação Estadual dos Territórios de Identidade da Bahia (CET), de forma resistente e propositiva, tem atuado com muita maturidade  e desse modo dá aula de esforço, inteligência e inovação.

O Governador Rui, junto com o Vice-Governador e Secretário do Planejamento João Leão, convocou a primeira Conferência Estadual de Desenvolvimento Territorial, que acontecerá dentro do Salão dos Territórios na VI Feira Baiana da  Agricultura Familiar e Economia Solidária (FEBAFES).

Esperamos a unidade, maturidade, inteligência e sensibilidade, tão comuns nas ações da CET, também nesse momento de decisões importantes, como as definições dos nomes para as representações no Conselho Estadual e para a  própria CET. É  hora de unidade. Não podemos dar ao luxo de desperdiçar a chance da CET e de toda Política de Desenvolvimento Territorial sair fortalecida.

A disputa do projeto nacional de desenvolvimento nos chama à responsabilidade de valorizarmos a unidade. Não vamos perder essa chance de continuar mostrando ao Brasil que somos referência da Política Territorial por termos forças na CET, nos colegiados e na ação do Governo Rui.

É TEMPO DE UNIDADE, DE INTELIGÊNCIA E FORÇA.
TODA FORÇA E AUTONOMIA À CET
Abcs,

Jerônimo Rodrigues
SDR

CARTA DE MUJICA A FIDEL

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“O mundo que eu enfrento é o de cartões de crédito e vidas são consumidas em uma luta para a qual não há guerrilha possível, todos me escutam com atenção, sorriso, batem palmas e depois continuam a tentar preencher suas vidas vazias com as coisas que os consomem, a prazo, mas inevitavelmente.”

 

Querido Fidel:

Recién me entero, la noticia ha sido devastadora. No dejo de imaginarte a vos, tendido en la escueta cama de madera que se convirtió en tu último refugio. Y aquí estoy, sentado en la entrada de la chacra pensando en lo que diré al mundo y cómo ocultaré esta lágrima, aunque dirán algunos publicistas que será mejor que se vea, que así se construyen las leyendas.

Las leyendas no se pueden construir, vos eres una, forjada con el mismo golpe de la metralla y la bandera ondeando en el campamento, ahí en la sierra, sin importar si es selva o pampa, siempre es igual, la batalla duele en la entraña de lo que llamamos nuestra tierra, ese pedazo de geografía que podemos recorrer pero que nos recorre a nosotros.

Y pienso que tuve suerte porque llegué a la silla viejo y la cara de bonachón nunca se me quitó, a pesar del encierro y la tortura; las críticas fueron menos, no tuve que enfrentar el rigor del escrutinio público al que vos hiciste frente con esa estatura de gigante con la que diste ejemplo al mundo y no fui forzado a debatirme entre patriotas y traidores, nadie me tildó de tirano. Pero esa suerte también se puede entender diferente.

El mundo que yo encaré es el de las tarjetas de crédito y las vidas consumidas en una lucha para la que no hay guerrilla posible, todos me escuchan con atención, sonríen, aplauden y continúan tratando de llenar sus vacías vidas con cosas que los consumen, a plazos, pero inevitablemente. A vos te queda Cuba que seguirá ahí, sin analfabetismo, con el mejor sistema de salud pública, con la mejor educación del continente y yo aún aquí, en la batalla, no por la vida, sino contra el olvido, enfrascado en una lucha que no tiene sentido porque el Sur se convierte en más Sur cada día, los monstruos insisten en su avance y ahora nos copan por todos los flancos.

La breve ilusión del continente bolivariano vuelve a desvanecerse, con la partida de Hugo, la ignominiosa salida de Dilma y de Cristina, mi confinamiento a un escaño del parlamento y la orfandad en que nos dejas, seguramente pronto el sinsentido de un mundo que no aprende de su historia nos devorará nuevamente.

Las sombras nos acechan y por hoy, querido amigo, vos has partido y no tendremos, por lo menos en este ciclo, una más de esas charlas interminables que insuflaban amor y victoria, de las que yo salía rejuvenecido, sintiendo que podía enfrentar a la más temible de las gárgolas o cruzar el abismo de un solo impulso, la tristeza es inevitable.

Pero ¿qué dirías vos? “Anda loco, que no es para estar tristeando ¿y qué más da? Que sólo es carne y pellejo, no te hagas al muerto vos, que la lucha sigue y es pa’lante nomás”, y yo digo a mi mente desvariando “Que él no hablaba así, no seas irreverente”, mejor pensar que habrías dicho algo más brillante, no los cuentos de este viejo loco que hace aplaudir a multitudes, pero no ha podido mover a su pueblo como tú, ¿Qué de la Oriental surja una batalla final? Difícil, no imposible… mientras tanto a vos, en esa estrella del Caribe, un guiño y un ¡Hasta la victoria… siempre!
El Pepe

 

De Niemeyer para Zezéu

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Hoje Zezéu Ribeiro completa 67 anos de existência. Sim, Completa!, afinal, alguém tem dúvidas de que ele continua vivo na nossa luta? Alguém tem dúvidas de que a sua história de integridade nos enche de esperanças e renova a nossa utopia?

Pensar nele me faz lembrar de um outro arquiteto que um dia escreveu algo que marcou profundamente a minha adolescência e que, algum tempo depois, encontrei em  Zézeu o exemplo de como fazer política materializando a sequência dessas palavras – foi assim que ele viveu  enquanto esteve por aqui:

“Um dia a vida será melhor, com certeza, sem as preocupações de luxo, ostentação e poder que tanto a desmerecem. Modestos e realistas, os homens aceitarão afinal serem filhos deste velho planeta, como as florestas e rios, bichos da terra e peixes do mar. Uma rosa para eles será uma pequena irmãzinha, bela e perfumada, e se lhes acorrer que amanhã ela estará desfolhada e, como eles, morta para sempre, a vida continuará a lhes parecer um breve passeio, mas cheio de amor e solidariedade.”

Oscar Niemeyer

O que Barack Obama disse a Malia e Sasha Obama depois da eleição de Donald Trump

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Mathew Rodriguez escreveu no sítio https://mic.com sobre a conversa que Barack Obama teve com as suas filhas sobre a vitória de Donald Trump. No seu texto Rodriguez lembra que além de Comandante-em-Chefe da Nação mais poderosa do mundo, Barack Obama é o Primeiro-Pai do País. Isso significa ter conversas difíceis com as suas filhas sobre o que está acontecendo no mundo. Ele recorre a um recente texto da Revista The New Yorker sobre o Presidente dos EUA para revelar como Obama consolou as suas filhas, Sasha e Malia após a eleição de Donald Trump.

Obama falou ao The New Yorker:

“O que eu disse a elas é que as pessoas são complicadas. As sociedades e as culturas são realmente complicadas e não são como a matemática; somos mais como a biologia e a química. Devemos lembrar que as sociedades são organismos vivos. É necessário manter a todo o tempo seu trabalho como cidadão e como um ser humano decente para afirmar-se constantemente, para levantar-se e lutar, para tratar as pessoas com bondade, respeito e compreensão. Eu acrescentei ainda: cada uma de vocês deve antecipar que a qualquer momento lá vai seu papai ser flare-ups da intolerância ou isso pode ser com você mesma e você deve enfrentar isso e tem que vencer. Você não pode entrar em uma posição fetal por causa disso. Não pode começar a se preocupar com o apocalipse. Você tem que pensar, ‘OK, onde são os lugares onde eu posso empurrar para que eles continuem avançando?’ “

Conferência proferida por ocasião dos 190 anos da Ata da Vereação de 14 de junho de 1822, em Santo Amaro, BA.

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Paulo Gabriel Soledade Nacif

Quero saudar à nossa ancestralidade. Pedir benção a todos os Santos e Orixás. Saudar o povo Santamarense referenciando D. Canô, matriarca maior dessa terra de Griots. Saudar e agradecer ao Prefeito, aos Vereadores e demais autoridades, pelo convite e pela presença.

É impossível traduzir em um discurso a dimensão deste lugar que ora ocupo. Esta terra teve e tem muitos tradutores, Roberto Mendes, Jorge Portugal, Maria Bethânia, Edith do Prato, Zilda Paim, Teodoro Sampaio, Raimundo Sodré, inclusive os filhos por escolha, como Gilberto Gil. Não esqueçamos que Caetano Veloso em trilhos urbanos, afirma: Santo Amaro “meu trabalho é te traduzir”.

Estar em Santo Amaro da Purificação é a um só tempo pisar em uma terra sagrada, de luta, santa e profana. Uma terra de tradições e inovações. E a maior invenção do povo de Santo Amaro foi o Brasil, afinal aqui definimos em um documento público e oficial como deveria ser a nascente civilização brasileira.

Por esse e muitos outros aspectos Gilberto Gil definiu: A Bahia sintetiza o Brasil. O Recôncavo sintetiza a Bahia. Santo Amaro sintetiza o Recôncavo e, por isso, em última análise, Santo Amaro é um lugar capaz de resumir o Brasil.

Estamos reunidos para comemorar a Ata de Vereação de 1822. Um momento em que o Recôncavo e esta cidade se apresentaram como um farol para o futuro. O documento, como nós todos aqui sabemos, é um grito de liberdade, um clamor pelo desenvolvimento do Brasil e numa bela contradição que muito nos ensina, Santo Amaro, ao mesmo tempo buscou respeitar os limites políticos e institucionais da época, mas não deixou de pedir o impossível. “No cabo da minha enxada não conheço coroné”.

Lembramos da ata de 1822 porque ela é significativa para nós hoje. Às vezes, O melhor o tempo esconde muito, muito longe, mas bem dentro aqui”. A ata é muito mais que um registro de uma reunião política, ou ainda um texto inspirador para o movimento político que se instaurava e para as lutas que se seguiriam e resultariam na independência do Brasil e da Bahia. Sim, a ata é isso, portanto, importantíssima e digna de comemoração. Mas essa ata é muito mais. Ela constitui o pensamento de um país nascente, um texto-projeto de nação e de um povo. Ali estão as bases do que se julgava necessário para se construir uma nova sociedade; ali se encontram as primeiras respostas para as perguntas “que país é esse?”, “que país queremos?”. Falamos de um momento fundamental na invenção desse lugar chamado Brasil.

Gostaria de dizer, quero acreditar, que a ata de 1822 continua sendo escrita na contemporaneidade. Digo isso porque um país é uma fundação permanente. A cada processo histórico, social, ambiental, econômico, cultural, o país se reinventa. E qual é a ata necessária para a re-fundação do Brasil de hoje?

Pergunta desafiadora que nos instiga a respondê-la. Por isso, Senhor Presidente da Câmara e Senhor Prefeito lanço uma proposta pública aos senhores: que a partir do próximo ano, a Câmara, a Prefeitura, o povo Santamarense e a UFRB, por todos os anos que virão, realizemos um evento que discuta a produção permanente de uma nova ata. E que Santo Amaro se renove, anualmente como precursora de um projeto de Brasil. Na verdade reescrever esta ata define a nossa missão de homens e mulheres públicos: “Brasil, meu trabalho é te traduzir”.

Como aquelas pessoas que se reuniram aqui em Santo Amaro há 190 anos, o que temos a dizer, hoje, sobre o país que ousaremos reinventar? Não acreditamos no fim da história. “Não me iludo, Tudo permanecerá do jeito que tem sido, Transcorrendo, Transformando, Tempo e espaço navegando todos os sentidos…”

Lembremos: a ata de 1822 deixava evidente que era necessário ampliar os limites da nossa independência. Para isso, o documento propunha um Poder Executivo autônomo, uma Constituição, Exército, Tesouro Nacional, Poder Judiciário, abertura econômica, tolerância religiosa, uma Universidade.

A condição de colônia era o que nos impedia e nos limitava como nação. Lembrar da Ata de 1822 nos remete ao nosso desafio constante de nos perguntar e olhar de frente para os grihões que hoje nos aprisionam. Em que mundo vivemos? Em que momento de reinvenção estamos?

O período democrático, a estabilidade econômica e institucional, a sociedade do conhecimento a redefinição do equilíbrio de poder no planeta, o Brasil, finalmente, reconhecido em sua importância econômica e política no mundo. A era Lula. Sim, estamos em mais um momento de transformações profundas.

190 anos depois da Ata de 1822, um Reitor da Universidade do Recôncavo, um sonho finalmente realizado desde aquele tempo, está aqui para refletir sobre o significado dessa data. Um Reitor negro, algo impensável naquela época, em um País que tanto tempo depois ainda luta pela reparação ao povo escravizado.

Não tenho dúvidas de que caso essa universidade tivesse sido criada, quando os santamarenses pediram, a abolição da escravatura não teria demorado tanto. Digo isso porque penso que a Universidade, através da educação e do conhecimento, é responsável por contribuir para construção de caminhos para a transformação, o desenvolvimento e para a justiça social.

Não podemos esquecer que a elite brasileira da época considerava que a concentração de negros faria com que a Bahia desaparecesse para o mundo civilizado, como escreveu em 1823 o Pensador Francisco Sierra y Mariscal. É ingenuidade ou maldade não associar, como querem alguns, tais pensamentos ao esquecimento que o povo do Recôncavo foi submetido por longos anos pelo Estado brasileiro e pelas elites, subordinado que foi a um modelo de desenvolvimento produtor de iniquidades. Mas resistimos, “o povo negro entendeu que o grande vencedor, se ergue além da dor”. E estamos aqui hoje, vitoriosos, porque a nossa história nos “deu régua e compasso”. Estamos prontos para nos inserirmos no mundo sem nos afastarmos das nossas raízes. Como nos ensina Milton Santos “a partir da base da sociedade territorial, podemos encontrar um caminho que nos liberte da maldição da globalização perversa que estamos vivendo e nos aproxime da possibilidade de construir uma outra globalização, capaz de restaurar o homem na sua dignidade”. Não somos provincianos, sabemos que “há quem sambe diferente noutras terras, noutras gentes, num batuque de matar”.

Por todo o Recôncavo antigo, de Valença ao sul a Mata de São João ao norte, temos ainda uma extraordinária permanência de vínculos que determinam a existência dessa região. Temos símbolos e iconografias que mantém em nós a noção de territorialidade comum. A certeza de que somos indivíduos herdeiros de um mesmo pedaço de território. Percorrendo o Recôncavo, é possível observar entre seus habitantes uma sensação de pertencimento à região, o reconhecimento de uma história comum e uma interessante referência a muitos hábitos e tradições.

Nesse momento, a UFRB está em vias de implantar aqui em Santo Amaro dois projetos estratégicos para a reinvenção do Brasil: um Centro voltado à formação, produção e inovação tecnológica em espetáculos artístico-culturais, o CECULT e um Centro voltado a estudos de impactos ambientais de atividades de mineração.

No caso do CECULT, Santo Amaro vai, mais uma vez, contribuir e inovar na construção da nossa brasilidade, abrigando um local de aprendizagem intimamente ligado com o conhecimento da nossa arte e do nosso talento, grandes riquezas produzidas pelo povo do Recôncavo.

Falar do nosso CECULT aqui em Santo Amaro é importante porque a ata que escreveríamos hoje exige voltar ao Recôncavo. Quando queremos entender o Brasil, aqui é “onde o oculto do mistério se escondeu”. Essa região, que podemos, sem falsa modéstia e com orgulho, dizer que criou esse País, porque representa sua diversidade, reúne seus mais significativos traços culturais, e que precisa ter a sua geografia e exuberância cultural, respeitadas e fortalecidas. Na mistura de dores, alegrias e resistências inventamos nossa musicalidade, religiosidade, nossa fala e gesto, e desenhamos um jeito, oferecemos um rosto para esse país chamado Brasil.

O Recôncavo transformou-se e dividiu-se em sua história recente, com grandes investimentos para a capital e região metropolitana, e, por outro lado, vimos o empobrecimento e a falta de políticas públicas para outra parte desse mesmo Recôncavo. Mas estamos de pé e firmes no propósito de sermos contra-hegemônicos e como na ata, continuarmos ousando em busca de conquistas que, por ora, parecem impossíveis. Nossa geração conquistou a UFRB e deve usar essa formidável ferramenta para contribuir de forma efetiva com as lutas em prol da unidade do Recôncavo e o resgate da qualidade de vida, justiça social e fortalecimento cultural do nosso território. Com isso estaremos defendendo um paisagem cultural muito cara à humanidade de todo o planeta.

Neste sentido, a ata que devemos escrever hoje almeja um país sem miséria e com qualidade ambiental. Não adianta uma universidade se instalar com tanta exuberância no Recôncavo se não tivermos coragem de encarar as graves consequências que a atividade de mineração causou nessa cidade, transformando-a no lugar urbano com a maior contaminação de chumbo em todo o mundo. Saibam: Nós seremos mais uma força no enfrentamento deste desafio e a UFRB só estará à altura do Recôncavo quando der respostas efetivas a essa chaga e a outras que a todos envergonham. Por isso, propomos aos Governos Federal e Estadual a implantação em Santo Amaro de um Centro voltado a estudos de impactos ambientais de atividades de mineração. Ao estudar como “Purificar o Subaé, mandar os malditos embora”, dialogaremos, mais uma vez, com todo o mundo, tão necessitado de ideias originais nesse campo. Prova disso são os impasses quase intransponíveis que acompanhamos atualmente na Rio +20 e no debate que assistimos sobre o novo Código Florestal Brasileiro.

A nossa ata quer que a Universidade, já pleiteada em 1822 seja um direito de todos. Uma universidade brasileira, com excelência e inclusão social, que contribua com a construção de homens e mulheres capazes de entender o mundo em toda a sua complexidade e solidários com processos emancipatórios da vontade de potência de todos. Nossa ata de hoje quer o desenvolvimento com sustentabilidade. Seguimos exigindo a tolerância e o respeito à diversidade.

Almejamos o desenvolvimento do Recôncavo para a felicidade do seu povo e a preservação das nossas riquezas material e simbólica, diversa, singular e plural. Como nos diz João Ubaldo Ribeiro[1], em Viva o Povo Brasileiro, através da personagem Maria Da Fé, uma mulher revolucionária: “o povo brasileiro não deve nada a ninguém, ao povo é que devem, sempre deveram. Compete à coroa ser leal aos súditos e não os súditos à coroa, assim como compete à República ser leal aos cidadãos e não a ela mesma.”

Portanto, lembrar da Ata de 1822 é um chamado para sua releitura, e assim aprender a reler também a nação que pretendemos construir. Isso é fundamental, e, como diz um compositor santamarense, Roberto Mendes, “vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”.

Acredito nesse momento como um convite para a nossa reinvenção, para o país que queremos, com justiça e igualdade, um país que existe para seu povo em todas as suas demandas e potencialidades. É com esperança que vamos em frente. Vamos escrever a nossa nova ata, vamos decidir nosso destino, vamos nós mesmos fazer a nossa história. Venham comigo! “Eu vou, Por que não, Por que não, Por que não…”

Câmara de Vereadores de Santo Amaro, Bahia.

14 de junho de 2012.

 

O texto inclui referências de letras das seguintes canções: A massa, de Raimundo Sodré.  Alegria, alegria, de Caetano Veloso.  Aquele abraço, de Gilberto Gil.  Brasil pandeiro, de Assis Valente.  Milagres do povo, de Caetano Veloso.  O ciúme, de Caetano Veloso.  Tempo rei, de Gilberto Gil.  Trilhos urbanos, de Caetano Veloso.  Ya Ya massemba, de Roberto Mendes.

[1] Ribeiro, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008.

Angela: Eles te deram tudo menos a igualdade

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Conheci Angela Davis pessoalmente em 2012. Sabia exatamente quem era ela, afinal esse encontro ocorreu 40 anos após o período em que ela foi  julgada e presa nos Estados Unidos, em processo eminentemente político que teve grande repercussão internacional. Ela permaneceu alguns dias conosco no Recôncavo e realizou a Conferência de Abertura do Fórum Internacional 20 de Novembro da UFRB. Criamos o Fórum  20 de Novembro da UFRB em 2006, ano de início das atividades da instituição – esse ano ele comemora 10 anos.

O que falar sobre Angela?
Ícone da luta pelos direitos civis, Angela Davis é filósofa e professora da Universidade da Califórnia.
De algum modo a sua história sempre esteve no meu mundo:

Como integrante dos Panteras Negras.

Na sua sua militância pelos direitos das mulheres.

Quando ela enfrentou como máxima dignidade a perseguição do FBI.

A Campanha “Libertem Angela Davis”.

E, por último, como não lembrar da música que John Lennon fez para ela?

Ela está, cada vez mais, atual!

Angela

Angela, eles a puseram na
prisão
Angela, eles atiraram no
seu homem
Angela, você é um dos
milhares de prisioneiros
políticos no mundo

Irmã, existe um vento que
nunca morre
Irmã, nós estamos respirando
juntos
Irmã, nossos amores e esperanças
para sempre
movendo-se tão lentamente
no mundo

Angela, podes ouvir que
a terra está girando?
Angela, o mundo
assiste a você

Angela, você em breve
retorná para suas irmãs e
irmãos do mundo

Irmã, você ainda é a professora
do povo
Irmã, sua palavra pode alcançar grandes distâncias
Irmã, existe milhões de
diferentes raças mas nós todos dividiremos o mesmo futuro
no mundo

Eles te deram a luz do sol
Eles te deram o mar
Eles te deram tudo menos
a chave desta prisão
Eles te deram café
Eles te deram chá
Eles te deram tudo
menos a igualdade

Os Estados e a universidade pública

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Paulo Gabriel Soledade Nacif

Esse texto, publicado na Folha de São Paulo em 2010, foi utilizado por muitos movimentos e campanhas em prol da implantação de universidades e institutos federais em todo o Brasil. O Ministro Henrique Paim certa vez me falou: “Reitor, você está muito citado”. Apesar dos avanços, a análise sobre as assimetrias federativas no sistema brasileiro de educação superior pública continua atual.

 

A REDE de universidades federais, constituída a partir da década de 1930, apresenta assimetrias significativas entre os Estados e é surpreendente que as elites e, particularmente, os representantes políticos tenham assistido à instalação desse sistema sem discussões que evidenciassem essa questão, cujas características não podem ser confundidas com as desigualdades regionais presentes no debate nacional desde o Brasil império.

Seguramente, os Estados que conquistaram vantagens na implantação de universidades federais nos seus territórios foram dotados de mecanismos de desenvolvimento que vão se revelar superiores a alguns outros que historicamente pautaram agendas nacionais de bancadas de deputados e senadores de todas as regiões. O Rio Grande do Sul recebe cerca de 8% do total do orçamento destinado às universidades federais, valor superior à soma dos percentuais destinados a Santa Catarina e Paraná. No Sudeste, Minas Gerais possui uma invejável cobertura de campi universitários federais e, em São Paulo, o sistema público é mantido prioritariamente por recursos estaduais.

No Nordeste, Pernambuco e Paraíba estão entre os Estados da Federação mais beneficiados quando se analisa os investimentos da União na educação superior, notadamente em relação à população e ao PIB. Por outro lado, a Bahia possui um número de matrículas/mil habitantes quase cinco vezes menor do que o da Paraíba e duas vezes menor do que o de Pernambuco. Por qualquer critério de análise, essas assimetrias se repetem em todas as regiões do país.

O poder que cada Estado possuiu em diferentes períodos e os interesses de suas elites certamente contribuíram para moldar o sistema universitário federal e estabelecer, adicionalmente, outras formas de financiamento da universidade pública. A história ressalta o sentimento autonomista de personagens que lideraram a política baiana até o golpe militar de 1964. A criação da USP é relatada como uma emblemática ação da elite paulista em busca de fortalecimento no plano cultural. Nos Estados do Sul existem as universidades municipais, e a estrutura social permitiu a criação de universidades comunitárias que desafiam o conceito tradicional de educação pública superior.

Em alguns Estados, o reduzido aporte de recursos federais levou à criação de robustos sistemas estaduais. Mesmo considerando-se relevante a ação estadual no ensino superior, não é razoável supor que a sua presença resolve o problema das assimetrias da rede de universidades federais, na medida em que, no modelo atual, se penalizam exatamente os orçamentos dos Estados que mais investem no setor. No caso de São Paulo, devido à potente economia do Estado, a reduzida presença da União poderia ser entendida como positiva cooperação paulista à Federação. No entanto, como exposto, mesmo excluindo o Estado bandeirante das análises, as desigualdades permanecem significativas.

As assimetrias na distribuição de recursos federais para a educação superior terão consequências ainda mais profundas no futuro, na medida em que os processos de desenvolvimento do Brasil e seus Estados se associam cada vez mais a fatores relacionados ao ensino superior, ressaltando-se: a ampliação da capacidade de criar e trabalhar com o conhecimento, com ênfase em tecnologia e inovação que contribuam com a agregação de valor aos produtos gerados nos processos socioeconômicos; o comprometimento da sociedade com a ampla formação de cidadãos qualificados e capazes de aprender continuamente ao longo da vida; formar e consolidar redes de confiança compartilhada entre as instituições e as pessoas nas diferentes regiões.

Não se pode esperar que um sistema social moldado há quase um século seja remodelado por decisões de médio prazo e, dada a complexidade dos conceitos envolvidos na questão, não será possível o estabelecimento de divisões orçamentárias rígidas.

No entanto, a sociedade brasileira pode incluir esse tema nos debates do Plano Nacional de Educação para o período 2011-2020, visando à busca de mecanismos de redução das profundas assimetrias aqui destacadas.

Texto publicado originalmente na coluna “Tendências e Debates” da Folha de São Paulo em 05 de abril de 2010

 

1- Figura em destaque retirada de https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_unidades_federativas_do_Brasil_por_porcentagem_de_pessoas_com_n%C3%ADvel_superior_completo

Conferencia de la UNESCO sobre Ciudades del Aprendizaje – Pronunciamiento del Gobierno de Brasil

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Paulo Gabriel Soledade Nacif – Secretaria de Educación Continua, Alfabetización, Diversidad e Inclusión (SECADI) de Ministerio de Educación de Brasil

Estimadas señoras e estimados señores,

Es con gran placer que me encontró entre ustedes en esta importante reunión que es la Segunda Conferencia Internacional sobre Ciudades Aprendizaje.

El gobierno de Brasil, representado por la Secretaria de Educación Continua, Alfabetización, Diversidad e Inclusión de Ministerio de Educación, está fuertemente empeñado en implementar una Política Brasileña de Educación a lo Largo de la Vida.

La historia de la educación en Brasil ha sido marcada por una trayectoria difícil. Durante la mayor parte de la historia de nuestro País la educación fue un privilegio para unos pocos. Esta realidad empezó a cambiar solamente con la Constitución Federal de 1988, después de la re-democratización del país, y sobre todo en este inicio del siglo XXI, cuando pasamos por un proceso sustentable de inclusión cultural y socioeconómica de parte importante de nuestra población.

También la educación está incluida en estos mejores indicadores socioeconómicos. Hoy tenemos un sistema educacional que abarca 49 millones de registros en la educación básica (según la encuesta de Educación Básica de 2014) e 7,3 millones de estudiantes de la educación superior (encuesta de educación superior del año de 2013), con los indicadores educacionales mejores de los que se registraban en el pasado. Pero aún tenemos un largo camino para asegurar un sistema educativo realmente integrador y de calidad para todos los brasileños.

Un País que ha pasado por un proceso de inclusión social tan radical debe tener estrategias que permitan establecer la organización de los esfuerzos para que esta inclusión sea embazada por avances educacionales y culturales que la sostenga. En este sentido, Brasil cuenta con un Plan Nacional de Educación que debe ser implementado entre los años 2014-2024 y propone metas desafiantes en todas las dimensiones educativas.

Se están adoptando diversas acciones que objetivan fortalecer el Plan Nacional de Educación y creemos que una de estas acciones deba ser la de adoptar el concepto de la Educación a lo Largo de la Vida como un importante principio rector de la política educativa brasileña. A lo demás, quiero recordar que Brasil es el País de Paulo Freire y que él nos ha enseñado que el hombre aprende siempre. Dice Paulo Freire:

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La lectura del mundo precede a la lectura de la palabra, de ahí que la posterior lectura de ésta no pueda prescindir de la continuidad de la lectura de aquél. […] este movimiento del mundo a la palabra y de la palabra al mundo está siempre presente…. De alguna manera, sin embargo, podemos ir más lejos y decir que la lectura de la palabra no es sólo precedida por la lectura del mundo sino por cierta forma de “escribirlo” o de “rescribirlo”, es decir de transformarlo a través de nuestra práctica consciente“.

Así que tomamos la Educación Permanente, durante toda la vida, como una guía, un concepto estratégico, un eje principal, una idea de conducción basado en una pedagogía de Paulo Freire.

Es por eso que consideramos que una reunión de ciudades aprendizaje es un evento estratégico para que la idea de que aprendemos todo el tiempo y en todas las dimensiones de la vida se universalice. Sin duda, las ciudades son los territorios más adecuados para crear mecanismos y espacios donde el aprendizaje sea parte de la vida de cada persona y en cada momento de su vida. Por supuesto que todos aprendemos siempre, durante toda la vida, pero la sociedad, además de la educación formal, debe crear estrategias que apuren la conciencia de este proceso de aprendizaje continúa, porque entonces nos volveremos más atentos a todas las oportunidades de aprendizaje de la vida.

Las ciudades pueden estimular y fortalecer el aprendizaje y puden hacerlo en las plazas, iglesias, parques, escuelas, calles, estaciones de metro, jardines, oficinas públicas. Necesitamos tornar común en los espacios de nuestras ciudades la idea que ya se encuentra en la base de la escuela contemporánea, o sea: que para crecer, aprender, construir conocimientos, nos necesitamos mutuamente y para ello tenemos que interactuar para intercambiar, compartir a través de libros, del conversaciones, del arte, de la educación, del deporte o del ocio o mismo del trabajo.

Con esto, sin duda se enriquecerá el sistema educativo, coordinando todos los pasos y etapas de la educación, reconociendo que la educación formal se articula en el día a día de la ciudad, con la no formal y la educación informal y fortalecimos la educación permanente, durante toda la vida. Debemos transformar la ciudad en el territorio de aprendizaje que estimule a la gente a darse cuenta de que cada integración entre sí y con los diferentes ambientes de su ciudad, les ofrece una oportunidad aprender e enseñar una nueva lección.

Gracias por su atención.

 Ciudad de México, 28 de setembro de 2015