Reflexões sobre Escola da Ponte, Cazuza e José Pacheco

Paulo Gabriel Soledade Nacif

No mês de setembro de 2016 a imensa honra de acompanhar o professor  José Pacheco numa visita à UFSB e ao sul da Bahia. Visitamos aldeias indígenas, quilombos, escolas e campi.  Pacheco é um educador português, dinamizador da gestão democrática na educação e reconhecido em todo o mundo pelo seu trabalho na Escola da Ponte, em Portugal. Nessa agenda contamos ainda com a participação dos queridos amigos Valdo Cavallet e Zilton Rocha.

Depois de uma semana interagindo cerca de doze horas por dia com o professor Pacheco, fico me perguntando: por que apenas poucas pessoas ousam mudar a escola? Por que a imensa maioria passa a existência reivindicando as condições ideais para mudar? Por quê? Por quê? Por quê?

Não sei…mas o professor Pacheco me fez lembrar Cazuza:

“…Pra quem vê a luz

Mas não ilumina suas minicertezas…

…Pra quem não sabe amar

Fica esperando

Alguém que caiba no seu sonho”.

E pensei:

– Pacheco sabe muita coisa sobre educação, mas, principalmente, ele aprendeu a amar!, por isso não perde tempo “esperando alguém que caiba no seu sonho”.

O que Barack Obama disse a Malia e Sasha Obama depois da eleição de Donald Trump

 

Mathew Rodriguez escreveu no sítio https://mic.com sobre a conversa que Barack Obama teve com as suas filhas sobre a vitória de Donald Trump. No seu texto Rodriguez lembra que além de Comandante-em-Chefe da Nação mais poderosa do mundo, Barack Obama é o Primeiro-Pai do País. Isso significa ter conversas difíceis com as suas filhas sobre o que está acontecendo no mundo. Ele recorre a um recente texto da Revista The New Yorker sobre o Presidente dos EUA para revelar como Obama consolou as suas filhas, Sasha e Malia após a eleição de Donald Trump.

Obama falou ao The New Yorker:

“O que eu disse a elas é que as pessoas são complicadas. As sociedades e as culturas são realmente complicadas e não são como a matemática; somos mais como a biologia e a química. Devemos lembrar que as sociedades são organismos vivos. É necessário manter a todo o tempo seu trabalho como cidadão e como um ser humano decente para afirmar-se constantemente, para levantar-se e lutar, para tratar as pessoas com bondade, respeito e compreensão. Eu acrescentei ainda: cada uma de vocês deve antecipar que a qualquer momento lá vai seu papai ser flare-ups da intolerância ou isso pode ser com você mesma e você deve enfrentar isso e tem que vencer. Você não pode entrar em uma posição fetal por causa disso. Não pode começar a se preocupar com o apocalipse. Você tem que pensar, ‘OK, onde são os lugares onde eu posso empurrar para que eles continuem avançando?’ “

Conferencia de la UNESCO sobre Ciudades del Aprendizaje – Pronunciamiento del Gobierno de Brasil

Paulo Gabriel Soledade Nacif – Secretaria de Educación Continua, Alfabetización, Diversidad e Inclusión (SECADI) de Ministerio de Educación de Brasil

Estimadas señoras e estimados señores,

Es con gran placer que me encontró entre ustedes en esta importante reunión que es la Segunda Conferencia Internacional sobre Ciudades Aprendizaje.

El gobierno de Brasil, representado por la Secretaria de Educación Continua, Alfabetización, Diversidad e Inclusión de Ministerio de Educación, está fuertemente empeñado en implementar una Política Brasileña de Educación a lo Largo de la Vida.

La historia de la educación en Brasil ha sido marcada por una trayectoria difícil. Durante la mayor parte de la historia de nuestro País la educación fue un privilegio para unos pocos. Esta realidad empezó a cambiar solamente con la Constitución Federal de 1988, después de la re-democratización del país, y sobre todo en este inicio del siglo XXI, cuando pasamos por un proceso sustentable de inclusión cultural y socioeconómica de parte importante de nuestra población.

También la educación está incluida en estos mejores indicadores socioeconómicos. Hoy tenemos un sistema educacional que abarca 49 millones de registros en la educación básica (según la encuesta de Educación Básica de 2014) e 7,3 millones de estudiantes de la educación superior (encuesta de educación superior del año de 2013), con los indicadores educacionales mejores de los que se registraban en el pasado. Pero aún tenemos un largo camino para asegurar un sistema educativo realmente integrador y de calidad para todos los brasileños.

Un País que ha pasado por un proceso de inclusión social tan radical debe tener estrategias que permitan establecer la organización de los esfuerzos para que esta inclusión sea embazada por avances educacionales y culturales que la sostenga. En este sentido, Brasil cuenta con un Plan Nacional de Educación que debe ser implementado entre los años 2014-2024 y propone metas desafiantes en todas las dimensiones educativas.

Se están adoptando diversas acciones que objetivan fortalecer el Plan Nacional de Educación y creemos que una de estas acciones deba ser la de adoptar el concepto de la Educación a lo Largo de la Vida como un importante principio rector de la política educativa brasileña. A lo demás, quiero recordar que Brasil es el País de Paulo Freire y que él nos ha enseñado que el hombre aprende siempre. Dice Paulo Freire:

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La lectura del mundo precede a la lectura de la palabra, de ahí que la posterior lectura de ésta no pueda prescindir de la continuidad de la lectura de aquél. […] este movimiento del mundo a la palabra y de la palabra al mundo está siempre presente…. De alguna manera, sin embargo, podemos ir más lejos y decir que la lectura de la palabra no es sólo precedida por la lectura del mundo sino por cierta forma de “escribirlo” o de “rescribirlo”, es decir de transformarlo a través de nuestra práctica consciente“.

Así que tomamos la Educación Permanente, durante toda la vida, como una guía, un concepto estratégico, un eje principal, una idea de conducción basado en una pedagogía de Paulo Freire.

Es por eso que consideramos que una reunión de ciudades aprendizaje es un evento estratégico para que la idea de que aprendemos todo el tiempo y en todas las dimensiones de la vida se universalice. Sin duda, las ciudades son los territorios más adecuados para crear mecanismos y espacios donde el aprendizaje sea parte de la vida de cada persona y en cada momento de su vida. Por supuesto que todos aprendemos siempre, durante toda la vida, pero la sociedad, además de la educación formal, debe crear estrategias que apuren la conciencia de este proceso de aprendizaje continúa, porque entonces nos volveremos más atentos a todas las oportunidades de aprendizaje de la vida.

Las ciudades pueden estimular y fortalecer el aprendizaje y puden hacerlo en las plazas, iglesias, parques, escuelas, calles, estaciones de metro, jardines, oficinas públicas. Necesitamos tornar común en los espacios de nuestras ciudades la idea que ya se encuentra en la base de la escuela contemporánea, o sea: que para crecer, aprender, construir conocimientos, nos necesitamos mutuamente y para ello tenemos que interactuar para intercambiar, compartir a través de libros, del conversaciones, del arte, de la educación, del deporte o del ocio o mismo del trabajo.

Con esto, sin duda se enriquecerá el sistema educativo, coordinando todos los pasos y etapas de la educación, reconociendo que la educación formal se articula en el día a día de la ciudad, con la no formal y la educación informal y fortalecimos la educación permanente, durante toda la vida. Debemos transformar la ciudad en el territorio de aprendizaje que estimule a la gente a darse cuenta de que cada integración entre sí y con los diferentes ambientes de su ciudad, les ofrece una oportunidad aprender e enseñar una nueva lección.

Gracias por su atención.

 Ciudad de México, 28 de setembro de 2015

 

 

Descobrindo caminhos: Mapa de Inovação e Criatividade na Educação Brasileira

Em 2015, incentivado por educadores, o Ministério da Educação instituiu, por meio da Portaria 751, um “Grupo de Trabalho Responsável pela Orientação e Acompanhamento da Iniciativa para Inovação e Criatividade na Educação Básica”. Esse GT gerou o Mapa da Inovação e Criatividade na Educação Brasileira. O resultado mostra que efetivamente já acontecem inovações na educação brasileira e muitas escolas e ambientes educativos passam por transformações em todas as regiões, nos diferentes contextos socioeconômicos e com os mais diversos públicos.

A Bahia participou do Mapa da Inovação e Criatividade na Educação Brasileira com treze experiências, num universo de 178 organizações selecionadas que traçam o perfil da inovação na educação do país.

Veja aqui o Mapa da Inovação e Criatividade na educação brasileira.

O que é uma Cidade Educadora?

 

 http://educacaointegral.org.br/glossario/cidade-educadora/

A concepção de Cidade Educadora remete ao entendimento da cidade como território educativo. Nele, seus diferentes espaços, tempos e atores são compreendidos como agentes pedagógicos, que podem, ao assumirem uma intencionalidade educativa, garantir a perenidade do processo de formação dos indivíduos para além da escola, em diálogo com as diversas oportunidades de ensinar e aprender que a comunidade oferece.

Movimento das Cidades Educadoras

Este conceito ganhou força e notoriedade com o movimento das Cidades Educadoras, que teve início em 1990 com o I Congresso Internacional de Cidades Educadoras, realizado em Barcelona, na Espanha. Neste encontro, um grupo de cidades pactuou um conjunto de princípios centrados no desenvolvimento dos seus habitantes que orientariam a administração pública a partir de então e que estavam organizados na Carta das Cidades Educadoras, cuja versão final foi elaborada e aprovada no III Congresso Internacional, em Bolonha, na Itália, em 1994.

A carta é ainda hoje o referencial mais importante da Associação Internacional de Cidades Educadoras, que reúne mais de 450 cidades em 40 países do globo.

O movimento compreende a educação como um elemento norteador das políticas da cidade e o processo educativo como um processo permanente  e integrador que deve ser garantido a todos em condições de igualdade e que pode e deve ser potencializado pela valorização da diversidade intrínseca à vida na cidade e pela intencionalidade educativa dos diferentes aspectos da sua organização: do planejamento urbano, da participação, do processo decisório, da ocupação dos espaços e equipamentos públicos, do meio ambiente, das ofertas culturais, recreativas e tecnológicas.

Na Carta, o movimento afirma:“A cidade educadora deve exercer e desenvolver esta função paralelamente às suas funções tradicionais (econômica, social, política de prestação de serviços), tendo em vista a formação, promoção e o desenvolvimento de todos os seus habitantes. Deve ocupar-se prioritariamente com as crianças e jovens, mas com a vontade decidida de incorporar pessoas de todas as idades, numa formação ao longo da vida. As razões que justificam esta função são de ordem social, econômica e política, sobretudo orientadas por um projeto cultural e formativo eficaz e coexistencial”.

Ainda para o importante teórico do movimento, Jaume Trilla Bernet, em uma perspectiva educadora, a cidade pode ser considerada a partir de três dimensões distintas, mas complementares: “Em primeiro lugar como entorno, contexto ou contida de instituições e acontecimentos educativos: “educar-se ou aprender na cidade” seria o lema que descreve esta dimensão.Em segundo lugar, a cidade é também um agente, um veiculo, um instrumento, um emissor de educação (aprender da cidade). E em terceiro lugar, a cidade constitui em si mesma um objeto de conhecimento, um objetivo ou conteúdo de aprendizagem: aprender a cidade. De fato se trata de três dimensões conceitualmente diferentes e que em algumas ocasiões convém diferenciar por motivos metodológicos, mas que na realidade se dão notavelmente mescladas: quando aprendemos de e na cidade aprendemos simultaneamente a conhecê-la e a usá-la”.

Assim, o movimento de Cidades Educadoras confere centralidade à educação como elemento norteador das ações e políticas de todas as áreas, na medida em que é compreendida como basilar para o desenvolvimento humano e social.

 

Referências bibliográficas

APRENDIZ, Associação Cidade Escola.Entrevista com Ladislau Dowbor. In:
Pesquisa-ação comunitária, São Paulo: Editora Moderna, 2011.

ARROYO, Miguel.O direito a tempos-espaços de um justo e digno viver. In: MOLL, Jaqueline (org.), Caminhos da educação integral no Brasil: direito a outros tempos e espaços educativos. Porto Alegre: Penso, 2012.

BERNET, J. T.Introdução. In: E. A. Educadores, La Ciudad Educadora = La Ville Éducatrice Barcelona, Barcelona: Ajuntament de Barcelona, 1990 (pp. 6-21). Carta das cidades Educadoras.Acesso online em  24/04/2012.

TEIXEIRA, Anísio. O ensino cabe à sociedade. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.31, n.74, 1959. p. 290-298.

Sobre a Secretaria de Educação de Lauro de Freitas

 

Paulo Gabriel Soledade Nacif

A nomeação de servidores com vínculos junto a outros entes públicos exige um processo burocrático que requer tempo para a sua concretização.

De um modo geral esse processo de liberação entre entes federados, poderes ou órgãos, demora em torno de trinta dias. Seja Secretário Nacional, Estadual ou Municipal. Esse, por exemplo, foi o tempo que durou entre o convite que recebi do Ministro Renato Janine e a minha nomeação como Secretário Nacional do Ministério da Educação, na SECADI.

Isso não impede que o convidado ao cargo atue como colaborador da administração enquanto os processos legais são encaminhados.

Desde o dia 02 de janeiro estamos trabalhando cerca de 12 horas por dia, conhecendo a educação de Lauro de Freitas e planejando as atividades letivas para o ano de 2017. Nesse trabalho, vale registrar, venho contando com a colaboração digna e entusiasmada dos servidores públicos da SEMED. Aproveito para registrar que lamento profundamente que a sociedade brasileira não tenha noção da seriedade e competência da imensa maior parte dos servidores públicos que está na base das políticas públicas dos Municípios, Estados e Federação e que determina a possibilidade da convivência sociocultural no nosso País. Muitas vezes sem condições de trabalho e sem reconhecimento social, atrevo-me a dizer que nós (sou servidor público há 29 anos) conseguimos proezas respeitáveis e inimagináveis para que esse País avance e minimamente funcione.

Após essa primeira semana de trabalho estou certo de que a Prefeita Moema Gramacho, com a firmeza da sua liderança e competência,  criará as condições possíveis para que a atual geração de educadores de Lauro de Freitas (à qual, agora, também, me somo) deixe um legado muito positivo para a educação desse município – expresso na construção de uma cidade educadora, na qual o processo de ensino/aprendizagem transborde os muros das nossas escolas e ocorra ao longo e em todas as dimensões da vida de cada pessoa de Lauro de Freitas.

 

O Mistério da Fraqueza Humana: De Gilberto Gil a Hélder Câmara

Paulo Gabriel Soledade Nacif

Gilberto Gil é genial. Em diversas oportunidades ele escreve, fala e canta sobre a sua relação com o nosso planeta, com o universo, com o espírito, a ascese, com as pessoas, com a nossa era. A sua tentativa de buscar equilíbrio em qualquer situação pode se revelar de uma maneira simples, por exemplo: “Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos / Aprendi a ser o último a sair do avião.”

A sua música “Parabolicamará”, mais do que uma invenção é uma descoberta – ao falar da velocidade das coisas nesses tempos de mundialização ele diz: “Pela onda luminosa / Leva o tempo de um raio / Tempo que levava Rosa / Pra aprumar o balaio / Quando sentia que o balaio ia escorregar.” Quem já viu a destreza de Rosa aprumando um balaio?, quem já viu, sabe bem a genialidade presente nesses versos. Eu ja vi, muitas vezes, aqui pelas bandas do Recôncavo!

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Na música “Mar de Copacabana” ele fala de uma maneira superdelicada sobre presentes que podemos dar à pessoa amada: “São tantas bijuterias de Deus/ Os sonhos, todos os desejos seus/ Um mar azul mais distante / E a estrela mais brilhante lá do céu…” E aí, qual é mesmo o presente que você deseja?

No livro “Música, Humana Música”, Nelson Motta, publica um depoimento muito interessante de Gilberto Gil sobre a relação dele consigo mesmo:

“Foi justamente na hora em que eu estava no chão, que a vida me derrubou, passou a perna em mim, que eu descobri que tinha que recomeçar tudo. Foi quando comecei a pensar em mim. Não no sentido de um cultivo mais intenso do ego, de um possível ego mundano, mas pensar em mim como uma planta, capinzinho na beira da estrada que cresce ali, anônimo e que se relaciona com as forças da natureza em suas formas mais secretas, sem que ninguém se dê por isso. Foi um voltar para dentro nesse sentido; de buscar um embriãozinho de vida; espontânea e que ainda pudesse haver dentro de mim e…aí começou.

Comecei a ficar mais manso. A querer ser mais manso a ser mais dócil, mais tolerante. Em todo o meu processo de autotransformação, à medida que me submetia por livre vontade a uma disciplina mais rígida me tornava mais elástico e tolerante em relação ao mundo e às pessoas; esta é a função da renúncia da disciplina e da ascese. A disciplina também tem um sentido punitivo. Você pune o passado, você pune o antigo, para abrir espaço para o novo ser.”

Sugiro começar o ano na balada de Gilberto Gil e não se afastar dela em nenhuma situação, esperando que o Tempo atue de maneira firme na nossa transformação: Tempo Rei! Oh Tempo Rei! / Oh Tempo Rei! / Transformai /As velhas formas do viver.

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E pra não ficar preocupado com o passar do tempo e o futuro que nos espera,  se inspire em outro gênio, Dom Hélder Câmara, quando ele nos da pistas de como buscar a sinceridade nas relações com o mundo a nossa volta e os seus infinitos mistérios:

“A sinceridade só começa quando se entende o mistério da fraqueza humana.

Quando se aceita a condição humilde de criatura vinda do barro e ao barro voltada.

Aí, começam a cair as máscaras, o palco se torna inútil,

porque se pode, enfim, ser fraco entre os fracos,

criatura entre as criaturas.”

Feliz 2017

 

 

Ocupações e Preocupações na Educação

Paulo Gabriel Soledade Nacif

“Porque os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer.”

José Saramago

Acompanho as ocupações nas universidades e escolas da educação básica brasileiras  contra a PEC 55 e a MP 746 e apoio essas ações, sempre com o  mais profundo respeito à diversidade de posições políticas, próprias da sociedade democrática. Nas minhas andanças  lembro de destacar uma questão pouco considerada: a nossa geração tem um desafio inédito, nunca antes enfrentado por lideranças acadêmicas e políticas de outras épocas –  implantar e consolidar  universidades públicas em pleno regime democrático e com a voz altiva de sujeitos que anteriormente não eram considerados na construção do Estado Brasileiro. Antes de nós, todas as expansões do ensino superior ocorreram em períodos de estado de exceção e/ou  de pouca participação social. Seja na década de 1940/1950 ou nas décadas de 1960/1970. Não considerar essa variável pode prejudicar qualquer análise da conduta de gestores e da perplexidade de setores da comunidade acadêmica ante o desenrolar dos fatos.

Associado a isso vivemos também uma quebra de paradigma do comportamento da juventude que segundo especialistas não encontra precedentes na história da humanidade. Essa questão é tão intensa que, na era da chamada “pós-verdade” um lema muito repetido é: “se você não está confuso e só tem certezas, possivelmente, você não entendeu nada.”

Pouco antes do Golpe Parlamentar de 2016 que depôs a Presidenta Eleita do Brasil,  Dilma Rousseff, participei, no México, de um evento, representando o MEC, com o filósofo Gilles Lipovetsky. Na ocasião ele falou sobre  o desafio de construir cidades educadoras na “sociedade da decepção” e sobre a tensão  entre a democracia  e a sociedade de consumo. No Brasil isso tem sido condensado temporalmente e, as vezes espacialmente, de maneira intensa e, também, trágica: tudo isso amplia em demasia os nossos desafios.

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Por tudo isso, principalmente no espaço escolar e na universidade, é razoável considerar que o caminho do diálogo, a escuta-forte, a tolerância profunda e a consideração efetiva e sensível da existência do outro, sejam os únicos caminhos possíveis para encontrarmos saídas.

 

O Recôncavo há quatro anos órfão de Dona Canô

Paulo Gabriel Soledade Nacif

Depois de muitos anos de implantada, a UFRB, maior universidade criada no ciclo de expansão do ensino superior federal que ocorreu no Brasil entre 2005 e 2015,  vai, compreensivelmente, ficando distante  daquela pequena comunidade acadêmica que conhecia toda a história e os protagonistas da luta por sua criação.

Noutro dia um professor fez questão de declarar que “a mobilização pela criação da UFRB pouco significado teve, na medida em que a expansão era algo anteriormente definido”. Prosseguindo, ele usou como prova da sua tese o Programa REUNI, que veio logo após a criação da universidade. Não estava presente no momento dessa declaração. Caso tivesse tido oportunidade, perguntaria a ele por que então a expansão do ensino superior federal na Bahia começou justamente aqui no Recôncavo. Exatamente aqui. Por que começou aqui e não em outras regiões com maior dinamismo econômico e maior importância política? A Escola de Agronomia era um bom motivo? um campus, com apenas um curso de graduação e um curso de mestrado, até poderia ser um bom motivo, mas não era suficiente para sensibilizar quem tomava decisões.

A mobilização da comunidade foi o fator determinante para que, registre-se, contra prognóstico inicial do próprio Governo Federal, a expansão do ensino federal superior na Bahia começasse pelo Recôncavo. Na verdade os tomadores de decisão consideravam que o sul e o oeste do Estado deveriam ser as primeiras opções para a expansão do ensino superior federal na Bahia. No entanto, nós escrevemos uma outra história!

A mobilização regional foi realmente impressionante, chegou a câmaras de vereadores, escolas, sindicatos, clubes, associações, deputados, senadores. Mobilizamos o Recôncavo. Realizamos dezenas de audiências e reuniões públicas.

Foram muitos protagonistas nesse processo mas agora precisamos contar a participação de Dona Canô nessa história.

Ainda em 2003 fui apresentado a Dona Canô, que me disse: “uma universidade vai ser tão bom, eu me preocupo tanto com os jovens, eles param de estudar, ficam sem emprego. Eu ainda vou falar com Lula”. E depois disso, ela participou ativamente da campanha, emprestando a sua imagem, sua assinatura, dando declarações e, inclusive, falando e cobrando diversas vezes ao Presidente Lula.” Como sempre, ela exercia o seu reinado matriarcal  como uma Deusa: sempre com firmeza e  doçura.

Numa reunião em Brasília, após ser cobrado por grandes lideranças políticas sobre a criação da UFRB, o Presidente Lula falou com muito carinho: “essa universidade do Recôncavo é um compromisso que eu tenho com Dona Canô!”

Quando houve a reunião do Conselho Universitário da UFBA para aprovar o desmembramento da Escola de Agronomia para a criação da UFRB, lá estava Dona Canô no Salão Nobre da UFBA. Um Conselheiro que fazia oposição ao mandato do Reitor Naomar Monteiro de Almeida-Filho, me chamou no canto e brincou: “vocês estão muito rápido! como a UFBA, uma grande universidade, pode ficar sem um curso de Agronomia! Eu ia pedir vistas ao Processo, mas fique tranqüilo, não vou fazer isso na frente de Dona Canô”.

Em 2006, quando o Presidente Lula foi lançar a UFRB, lá estava Dona Canô. Ela foi até Cachoeira, visitou as obras do Quarteirão Leite Alves com o Presidente, mas a família preferiu que ela não o acompanhasse até Cruz das Almas para não cansá-la mais.

E, por favor, nunca não duvidem da capacidade que Dona Canô possuia, mesmo após os 100 anos de vida, de saber exatamente a dimensão o que estava fazendo.

No final de 2011, em visita a Santo Amaro, com uma delegação da UFRB, fomos convidados para tomar um suco com Dona Canô. Nesse dia, ela disse disse: “A universidade veio para o Recôncavo, agora tem que tem que vir para Santo Amaro. Uma universidade vai ser tão bom, eu SEMPRE me preocupo tanto com jovens, eles param de estudar, ficam sem emprego.” Exatamente o que tinha dito há oito anos antes.

Nessa última vez que estive com ela, chegamos à casa, conduzido por Rodrigo. Eu estava muito reservado, preocupado em incomodar o descanso de uma senhora de 104 anos, falei: Benção Dona Canô. E ela disse, brincando, com um sorriso delicado e me deixando à vontade: “meu filho eu abençôo tanta gente simples aqui em Santo Amaro, quanto mais um REI-TOR. Deus te abençoe”.

Dona Canô nos deixou em 25 de dezembro de 2012.

Maria Bethânia e Caetano Veloso já revelaram muitos talentos para o Brasil, mas sem dúvidas  a maior revelação que eles fizeram para o mundo foi Dona Canô.

Não tenho dúvidas que existe um pouco dela nesses versos de Caetano:

“E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos, não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio.”

É isso!

 

Texto publicado originalmente no sítio: https://www.ufrb.edu.br/portal/noticias/3082-a-ufrb-de-dona-cano

Natal Brasileiro: Alegria na Tristeza de Valente

Paulo Gabriel Soledade Nacif

A música de Assis Valente salva o meu Natal. Sempre sinto muito orgulho quando vejo que o Natal brasileiro apesar do Bom Velhinho, com todo o seu excesso de roupas e todo o seu consumismo, com suas frases feitas, sua neve e seus pinheiros, muitas vezes floridos de hipocrisias, foi antropofagado – digerido pela genialidade de Assis Valente, baiano lá das cabeceiras do Recôncavo, Teodoro Sampaio (à época um distrito de Santo Amaro denominado Bom Jardim). Assis Valente  nos desafia a enfrentar o mundo por outras perspectivas: presente bom é a felicidade!

Na minha infância/adolescência, morando em Teodoro Sampaio, fui por muitos anos vizinho de familiares de Assis Valente e, nessa época, tive a oportunidade de conviver com a aura de mistério que envolvia a sua história naquela pequena comunidade. É isso:  “acontece que eu sou baiano”. Assis Valente digeriu o colonizador, com coentro! Mais um caboclo Capiroba a churrasquear uma carninha na brasa…”Viva o Povo Brasileiro!”

É de Assis Valente a música “Boas Festas”: tipicamente brasileira, cheia de ironias e desafios, escondidos numa falsa ingenuidade. Veja que gênio!

Ele começa, candidamente: Anoiteceu / e o sino gemeu / e a gente ficou / feliz a rezar”.

Rapidamente, ele aproveita o momento de submissão e candura e faz o seu pedido: “Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar”.

Como nunca recebe o presente, Assis Valente entra com toda a ironia que o nosso povo aprendeu após tantas esperanças perdidas: “Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / E assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem.”

Tudo isso numa machinha linda, cheia de ritmo e lirismo que penetra e embala o Natal de norte a sul e de leste a oeste ou, como diz Jonh Lennon: Todo o natal – dos fracos e fortes, dos ricos e pobres, do branco e do negro, do amarelo e vermelho.

A marchinha, gênero importado e por aqui já canibalizado por outros caboclos Capirobas, foi perfeita para revelar essa atmosfera sincrética brasileira que expressa a cultura de um povo em formação, capaz de engendrar infinitas formas de resistências, negociações, reelaborações e redimensionamentos culturais, inclusive nas relações com o sagrado.

Assis Valente, depois de viver em Alagoinhas, Senhor do Bonfim e Salvador, mudou-se com 17 anos para o Rio de Janeiro. Lá foi protético, teve seus desenhos publicados em Revistas, escreveu peças de teatro, mas foi como compositor que alcançou grande sucesso nas vozes de ícones como Carmem Miranda, Orlando Silva e Herivelton Martins.

A sua música “Brasil Pandeiro” (https://www.youtube.com/watch?v=LfbQevsmxaE) é, para muitos, comparável, a “Aquarela do brasil”: Brasil, esquentai vossos pandeiros / Iluminai os terreiros / Que nós queremos sambar…”

Ele também compôs “Meu Moreno Fez Bobagem” (https://www.youtube.com/watch?v=koUdoSqrecY) e “Camisa Listrada” (https://www.youtube.com/watch?v=IX41ggikWHI). Ainda hoje há idiotas que estranham Chico Buarque ter uma capacidade tão grande de construir  letras de músicas que assumem perspectivas profundamente femininas, então, imagine como era a reação na década de 1940 quando um compositor  escrevia: “Meu moreno fez bobagem / Maltratou meu pobre coração / Aproveitou a minha ausência / E botou mulher sambando no meu barracão / Quando eu penso que outra mulher / Requebrou pra meu moreno ver / Nem dá jeito de cantar /Dá vontade de chorar / E de morrer”.

Enfrentando o racismo, tendo que explicar a sua orientação sexual, sempre com dificuldades de recolher os seus direitos autorais que hoje o tranformaria num milionário, não é por acaso que Assis Valente é autor de expressões ainda populares no Brasil, como por exemplo nos versos: “Deixa estar jacaré / Que o verão vai chegar / Quero ver se a lagoa secar” (https://www.youtube.com/watch?v=WFwiu3W6lBc).

Esse gênio da raça morreu no dia 06 de março de 1958, com 46 anos de idade. Num bilhete, deixou o último “verso”: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo.”

 É Papai Noel: “A carne mais barata do mercado é a carne negra.”

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