A Eternidade do Professor Joelito

 

Era março de 1985. Depois de um ano muito duro estudando num curso pré-vestibular em Salvador e tendo sido aprovado nos vestibulares de Agronomia na UFBA e Medicina na Baiana, decidi ir contracorrente. Em meio à forte pressão para escolher o curso de maior validação social, parti para visitar Cruz das Almas, aonde pretendia residir.

No ônibus da Empresa Viazul havia um grupo de paulistas – jovens turistas que viajavam para Valença. Começamos a conversar. A viagem era longa, durou quase cinco horas, passamos por Santo Amaro, Cachoeira, São Felix e Muritiba. Ainda fomos brindados com a espera da manobra do trem na Ponte Dom Pedro Segundo, sobre o Rio Paraguaçu – um tédio para a rotina dos  que usavam frequentemente aquela travessia, mas uma festa para nós, jovens universitários. Falo assim porque passei a me sentir imediatamente como um deles. Aquela viagem, com aquele ambiente tão animado e diverso, me cativou completamente. Eu rapidamente me entrosei com aquela turma. Ao chegarmos em Cruz das Almas, só não segui com elas e eles por absoluta falta de dinheiro.  Dois daqueles jovens estudavam agronomia na ESALQ/USP e lembro que um deles falou: “Você estudará com o melhor professor de Solos do Brasil: O professor Joelito!”.

Eles haviam assistido a uma palestra do Professor e estavam encantados com a capacidade de comunicação e conhecimento daquele “Baiano de Aracaju”. O entusiasmo era tanto que o outro estudante logo me disse: “Quando começarem as aulas, procure professor Joelito e se ofereça para fazer qualquer coisa, lavar o laboratório, limpar banheiro, carregar amostra de solos, limpar o sapato dele, qualquer coisa! Mas se aproxime e vá trabalhar com ele!”.  A empolgação daqueles estudantes com o curso de Agronomia e com aquele professor foi decisiva para que eu tivesse certeza de que estava fazendo a escolha correta para o meu futuro!

A viagem com os universitários paulistas e as nossas conversas ficaram guardadas na minha mente! Na primeira oportunidade, ainda no primeiro semestre da graduação, entrei, acompanhado do colega Antenor, no gabinete do “melhor professor de Solos do Brasil” e nunca mais saí. Estou aqui até hoje!

Ser professor é vivenciar uma experiência radical e concreta de imortalidade. O Professor Joelito mudou a minha vida (e de tantos outros) e, podemos, assim, mudar a vida de outros tantos, que farão o mesmo à frente! Como ensina Saramago “se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”

Foram muitas as aventuras com Joelito. Na graduação, achava ele tão bom que, em segredo, eu o tratava de Jojó de Olivença, célebre surfista à época! Um dia, depois de horas de coleta de amostras de solos no campo, ele me disse: “ A vida é dura, a gente aqui suando para estudar os solos e tem gente que ainda chama a gente de Jojó de Olivença, não é Paulo? ” E deu um belo sorriso! Até hoje eu não descobri quem contou o meu segredo!

Muitas vezes estivemos em lados distintos. Ele sempre respeitou e até incentivou os meus outros caminhos…

Abaixo, um texto que o emocionou muito. Foi escrito pela professora Lícia Barros, Coordenadora do Programa de Iniciação Científica da UFBA na década de 1980. Resume bem o espírito de Joelito de Oliveira Rezende.

RESPOSTA A UM JOVEM PESQUISADOR

Em recente encontro que uniu o VIII Seminário Estudantil de Pesquisa com o III Seminário Universitário de Pesquisa de Docentes, promovido pela Universidade Federal da Bahia, discutiu-se a “Problemática da pesquisa e suas Implicações na produção do conhecimento”.

Nessa ocasião, ante um quadro bastante desfavorável de omissão, de falta de participação dos professores e alunos, um estudante-pesquisador, Paulo Gabriel Soledade Nacif, da Escola de Agronomia, após o debate, falou em nome dos discentes, deixando uma angustiada pergunta no ar: diante de tamanho desinteresse dos professores, muitos deles repetindo as aulas que proferiram há anos atrás, cumprindo uma mera rotina de despejar conhecimentos (alguns deles já ultrapassados), o que seria dele? Se, após repetidas discussões anuais e reiteradas queixas pela indiferença do professorado para com iniciativas de fomento ao ensino e pesquisa, nada mudou, quem iria lhe socorrer e a seus colegas?

A mesa debatedora, a quem foi dirigida a indagação, devolveu-a ao plenário.

Coube à professora Suzana Alice Cardoso respondê-la com excelente reflexão sobre a postura a ser adotada, salientando a importância de Conselhos e Colegiados assumirem, de fato, o seu papel de formuladores da política acadêmica e neles, cada membro, cada professor, decidir-se por uma efetiva participação, colaborando, desse modo, para o crescimento e melhoria da vida da instituição.

Na oportunidade, dado o adiantado da hora, em muito ultrapassado o tempo destinado à mesa redonda, com prejuízo das atividades subsequentes, abstive-me de interceder, o que faço agora, complementando as palavras da Professora Suzana Alice.

Paulo Gabriel,

Para você, que chegou onde está, que vem se dedicando à pesquisa, não há realmente riscos. Seu trabalho, em conjunto com o colega Antenor Aguiar Neto, é excepcional. Concorrendo ao Prêmio Jovem Pesquisador/1988, obteve nota máxima em todos os itens, mereceu louvores de seus examinadores e a ressalva de que não é apenas uma monografia de graduação. É, sem favor, uma autêntica dissertação, em nível de mestrado, de excelente qualidade.

Portanto, você, Antenor, e todos os 429 estudantes participantes do Seminário de Pesquisa, estão a salvo.

Constituem um grupo especial, alerta, quando muitos hibernam. Já encontraram seus caminhos e estão na direção certa. Mas, e os outros? Sua preocupação – altruísta que foi – se estendeu aos outros. Aos demais alunos de nossa Universidade. Sobre eles recai, evidentemente, uma ameaça. O que pode então ser feito?

O quadro não é tão desolador! Há muitos professores cientes de suas responsabilidades, dedicados ao seu mister. Vocês próprios tiveram a chance de conseguir um orientador do quilate do Professor Joelito de Oliveira Rezende, altamente interessado na formação do pesquisador, na melhoria da qualidade do ensino. Como ele, há dezenas de outros. Mas a grande massa estudantil não percebeu, não se interessou, não está usufruindo. Esses mestres passarão e terão que ser substituídos, no futuro.

Então, a solução está exatamente em vocês. Os seus contemporâneos – infelizmente – continuarão alheios aos benefícios.

Mas as outras gerações de estudantes hão de sentir os influxos benéficos advindos da riqueza latente de cada um de vocês – pesquisadores incipientes de hoje. Cada ação, embora isolada, irá contagiando quem lhe rodeia e, como círculos concêntricos, expandindo seu raio de alcance. Na introdução do livro de resumos das Comunicações do último Seminário citei Machado de Assis, ao dizer que “alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”.

São vocês, estudantes, a âncora, a tábua de salvação! Continuem! Cada um de nós forja o próprio destino, Deus nos deu o poder de “decidir, de perseverar em vez de desistir”. Por isso, parafraseando Og Mandino, escolham crescer… em vez de apodrecer, agir…em vez de procrastinar. Usem com sabedoria o seu poder de escolha. Chegará o dia em que seus planos serão ouvidos pelos outros e “suas palavras se transformarão em feitos realizados”.

A resposta, jovem, está em suas mãos.

 

Salvador, 15 de dezembro de 1988.

Lícia Margarida Senna Borges de Barros

Coordenadora do Programa Estudantil de Pesquisa da UFBA

 

 

 

RECÔNCAVO ABSOLUTO: SUA MAGIA, SEUS LICORES

“O melhor o tempo esconde
Longe, muito longe
Mas bem dentro aqui…”

Trilhos Urbanos – Caetano Veloso

Cheguei no Recôncavo com dez meses de idade. Era fevereiro de 1965. Meus pais separaram-se logo após o meu nascimento e a minha mãe, com dois filhos pequenos, mudou-se para Teodoro Sampaio, onde existia a Fundação Serviço Especial de Saúde Pública – FSESP, instituição em que ela trabalhava.

O nome da cidade é uma homenagem àquele que foi o engenheiro mais famoso do final do império e do início do século XX e que nasceu ali. À época o povoado denominava-se Bom Jardim e pertencia a Santo Amaro. Era constante a citação de Teodoro Sampaio (1855-1937) como filho ilustre daquela cidade e, naquele lugar de negros, para nós, crianças, era meio non sense quando destacavam que ele era negro, afinal, por que não seria? Soou estranho quando alguém contou que em 1879, os membros do Gabinete de um Ministro recusaram-se a publicar o nome de Teodoro Sampaio como integrante da Comissão Hidráulica do Império, para não humilhar os outros engenheiros, brancos. Seu nome foi publicado em separado numa edição posterior. É possível que essa tenha sido a primeira aula sobre as dificuldades que teríamos na vida, mas tudo era muito novo no mundo para nos preocuparmos com isso.

Teodoro Sampaio, com cerca de sete mil habitantes, nas cabeceiras do Recôncavo, localiza-se entre três polos que exercem forte influência sobre esse município: a sudeste fica Salvador (96 km, com 2,9 milhões de habitantes), a oeste temos Feira de Santana (46 km, 600 mil habitantes) e a nordeste temos Alagoinhas (35 km, 100 mil habitantes). Esses três polos de diferentes grandezas, exercem forças atrativas irresistíveis para um pequeno município, notadamente quando sabemos que o Brasil sempre careceu de políticas de fortalecimento dessas comunidades.

Essa proximidade a centros maiores se traduziu no seu esvaziamento permanente. Sem potência para resistir à atração desses grandes centros do seu entorno, Teodoro é como um núcleo submetido a forças inerciais que dele tudo retira.  Ou, quase tudo! Ontem, hoje e amanhã, onde há seres humanos, o mundo será reinterpretado e, assim, reinventado. Permanentemente. Histórias são criadas sobre a dor, a chuva, o desejo, o solo, o choro, as estrelas, a alegria, os ventos. Tecnologias são geradas para a comida, a casa e a cura. A arte é inventada para nos salvar da vida. Deuses são criados para nos livrar da morte!

Quando há gente convivendo, um cantinho qualquer esquecido do mundo interage com as forças cósmicas sem que ninguém precise descobri-lo para que isso seja sempre extraordinário. Enquanto houver dia, noite, sol, chuva e convivência, as virtualidades humanas e as suas experiências singulares serão infinitas. A invenção permanente da vida, a partir de cada realidade humana, social e cósmica é a magia mais admirável do mundo.

E o Recôncavo caprichou em magia: Teodoro desenvolveu-se como uma Macondo de Garcia Marquez, realisticamente fantástica. Lá cresci, com direito a circos, ciganos, histórias, deuses – e tudo mais que as pessoas inventam quando são esquecidas do resto do mundo, seja na Nova Guiné, numa Planície do Rio Danúbio, no Saara, no Curuzu, no Harlen, ou num cantinho perdido do Recôncavo da Bahia.

O Recôncavo é o nordeste molhado pelo mar, pelas chuvas e pelos rios. Integra os domínios da imponente Mata Atlântica, não obstante ela seja tão rara de ser encontrada – transformada em cinzas para liberar áreas para a agropecuária, em lenha para os engenhos de açúcar, em madeira para barcos e para tantos outros usos. O desmatamento aqui foi tão rápido e intenso que nos meados do século XVII o Recôncavo já importava lenha do sul da Bahia.

Gilberto Freyre, no livro “Nordeste”, integra o Recôncavo a um conjunto de territórios da região que é diferente daquele seco, dos sertões de areia seca rangendo debaixo dos pés: “O Nordeste do massapê, da argila, do húmus gorduroso é o que pode haver de mais diferente do outro, de terra dura, de areia seca. A terra aqui é pegajenta e melada. Agarra-se aos homens com modos de garanhona[…] A qualidade do solo tornou possível o avanço civilizador da cana em várias outras terras do Brasil. Mas a estabilidade de sua cultura no extremo nordeste e no Recôncavo se explica por condições favoráveis de solo, de atmosfera, de situação geográfica. ”

É bastante conhecida a emergência do complexo canavieiro nas áreas baixas do centro-norte do Recôncavo (nos solos localmente denominados massapês), associado, no Sul e ao norte de Salvador, à produção de gêneros alimentícios, madeiras e fumo. Nesse processo, os colonizadores portugueses dizimaram dezenas de aldeias tupinambás e fizeram do Recôncavo um dos principais destinos da diáspora africana. O Recôncavo sempre será, para todo o Brasil, uma referência para estudos de áreas como geologia, oceanografia, pedologia, economia, sociologia, antropologia, literatura, música, artes plásticas e religiosidade.

Como é próprio de cidades como Teodoro Sampaio e outras do Recôncavo, tínhamos o nosso Francisco, o Homem, um ancião errante de quase 200 anos, que passava com frequência por lá, divulgando as canções compostas por ele mesmo. Lá também havia um mistério que nunca se esclareceu, como foi a morte de José Arcadio, em Macondo. Da mesma forma que havia época de trovoada, época de pipa e o tempo de tanajura, também havia o tempo dos mistérios. A cada estação uma nova história assombrava os moradores daquele lugar. Às vezes uma história vinha acompanhada de conselhos para evitar tragédias e então muitos preferiam seguir as penitências estabelecidas por seus feiticeiros (padres, pastores, mães de santo, médiuns, rezadores e parteiras) para evitar que se cumprissem as sentenças catastróficas anunciadas nas histórias. As penitências poderiam ser uma pedra preta debaixo do pote, a ida a uma missa, uma oração especial, encomenda a um pai de santo ou uma reza de folha.

No Recôncavo e particularmente em Teodoro, vicejam assombrações em todos cantos. Gilberto Freyre, que escreveu um livro sobre o assunto (Assombrações do Recife Velho) se encantaria com esses nossos fantasmas. As nossas histórias são tão incríveis quanto as assombrações da Veneza Pernambucana. A intensidade da integração entre vivos e mortos é quase completa. Só não era mais crível por conta do desespero das pessoas diante da morte de alguém próximo: Afinal, se no dia a dia todos, mortos e vivos, vivíamos imbricados, porque chorar tão atlanticamente a partida de uma pessoa querida?

Minha mania de ordenamento me levou a agregar as assombrações do Recôncavo em três grupos: ambientais, personificadas e animais. As assombrações ambientais são aquelas que aparecem em espaços mal-assombrados: O mercado que já foi um cemitério, uma casa onde alguém morreu em circunstâncias especialíssimas, um prédio abandonado, uma lagoa encantada, o trecho de uma estrada onde houve um acidente ou uma emboscada; as assombrações personificadas são aquelas almas que possuem CPF mesmo no além: Um noivo que morreu no dia do casamento; o cavaleiro da meia-noite,  a mulher de fora que morreu e procura o caminho de volta para Salvador, a procissão das almas, o homem do saco; Temos também as assombrações animais, como a caipora, o boitatá e o curupira. E, num grupo à parte, temos ainda as assombrações que são interfaces daquelas categorias – e aqui o mais famoso é o lobisomem.

O Recôncavo é um território do realismo mágico e que encontrou uma tradução à altura em João Ubaldo Ribeiro, cujo testemunho, presente em “Viva o Povo Brasileiro”, invoco para provar que não estou a mentir. Por isso, não tenho dúvidas sobre a existência de uma ligação subterrânea entre Teodoro Sampaio e Aracataca na Colômbia, por meio de uma gruta onde se encontram os moradores de Macondo e do Recôncavo que desencarnaram e que ficam ali, conversando e preparando novas histórias para quando ressuscitarem. É nessa gruta que Gabriel Garcia Marquez e João Ubaldo Ribeiro se esconderam quando cansaram da vida entre nós.

Minha mãe integrou, desde a década de 1950, as primeiras gerações dos “agentes sociais de saúde” (visitadoras sanitárias) do Brasil como servidora da Fundação Serviço Especial de Saúde Pública – FSESP, serviço pioneiro no País em assistência, que empregava o trabalho de pessoal auxiliar para o atendimento de grupos como gestantes e crianças, e no controle de doenças transmissíveis. Na FSESP, as visitadoras sanitárias assistiam regularmente nos domicílios às mães e seus filhos recém-nascidos, estando sob sua tutela uma área geográfica e populacional.

O papel que minha mãe desempenhava nessa pequena cidade, que tinha apenas um médico (que também servia a outros municípios), era a chave para que eu fosse conhecido e querido em todo aquele lugar. Eu corria aqueles Recôncavos em todas as direções, nos seus massapês, areias e outras terras movediças, altos e baixos, mandiocais, canaviais, plantios de fumo, pastos e quintais, relacionando-me intensamente com aqueles que, depois, a academia chamaria de mestres de saberes populares, sambadeiras, sambadeiros, pais e mães de santo, bordadeiras, artesãos, cozinheiras, rezadeiras, capoeiristas, contadores de histórias.

Foi assim que tive acesso, por exemplo, às minhas primeiras aulas sobre o Recôncavo. Lembro-me dos trabalhadores de cana voltando para a cidade na entressafra e contando histórias dos baixios do Recôncavo: “Lá em baixo, em Salvador, tem é coisa…”. Sempre me impressionou aquela que, depois descobri, foi a minha primeira aula de geografia, quando um trabalhador me disse: “Eu saio daqui das ‘cabiceira’ do Recôncavo e vou descendo, cortando cana e só paro lá embaixo quando o rio Subaé vira mar”. Causa-me espanto ainda hoje pensar que um trabalhador rural, naquela época, tinha uma ideia tão precisa do Recôncavo – um anfiteatro voltado para a Baía de Todos os Santos, que toma o lugar do palco.

Minha mãe voltou a se casar, com Everaldo, famoso fabricante de licores do Recôncavo e servidor público dos Correios em Santo Amaro da Purificação, município próximo de Teodoro Sampaio. Caetano Veloso canta com precisão em “Jenipapo Absoluto”, sobre a importância do fabrico de licor na vida de algumas famílias do Recôncavo – terra tão propagada pelo sol de fevereiro, mas pouco lembrado pelo seu junho tão frio:

“Como será pois se ardiam fogueiras
Com olhos de areia quem viu
Praias, paixões fevereiras
Não dizem o que junhos de fumaça e frio
Onde e quando é jenipapo absoluto
Meu pai, seu tanino, seu mel
Prensa, esperança, sofrer prazeria
Promessa, poesia, Mabel.”

Everaldo tinha um pouco de José Arcadio, patriarca da família Buendía, “cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia”. Assim, estava sempre em busca de novidades para divertir a família e ter histórias para contar para os amigos. Uma brincadeira, uma história, um brinquedo na feira, um instrumento musical.  Sempre havia uma novidade!

O papel do meu padrasto nos Correios de Santo Amaro e suas profundas relações com aquela comunidade, por exemplo, me permitiram frequentar a casa de Dona Canô antes do mito ser criado. Algumas vezes acompanhei Everaldo ao trabalho em Santo Amaro e em visitas à casa dos Veloso. A proximidade com aquele mundo me fazia ter uma clara preferência pela mãe em relação aos seus filhos, já famosos. Interessante: lembro-me claramente de uma moça que trabalhou na nossa casa lamentando: “Dona Canô é muito legal. Já pensou se Dona Canô fosse mãe de Wanderlei Cardoso, Paulo Sergio ou Jerry Adriani e não desse Caetano Veloso?”. Sim, porque o Recôncavo além do samba de roda, sempre adorou músicas que depois passaram a integrar o que chamam de brega. Talvez por isso, depois que me afinei com a Tropicália, tenha passado a gostar tanto de ouvir Caetano Veloso cantando Fernando Mendes (Você não me ensinou a te esquecer) ou Odair José (Eu vou tirar você deste lugar) e Maria Bethânia a cantar Dalva de Oliveira (Calúnia) ou Carmen Costa (Eu sou a outra). Recôncavo Absoluto.

Aquele mundo me deu régua e compasso para questões fundamentais como a segurança necessária para não ter medo do Recôncavo que eu reencontraria no futuro. Nos anos da reitoria da UFRB, algumas vezes tive de ouvir, sem alterar o semblante (faz parte da liturgia do cargo), de professores e estudantes vindos das mais diversas partes do mundo, me dando aula sobre essa região e quase falando: “É lamentável que a UFRB tenha um reitor que não conhece o povo do recôncavo e não faz ideia do que é pisar no massapê nem da ancestralidade que tudo isso carrega”.

O trabalho de Everaldo nos Correios também foi relevante para um privilégio raro no interior. À época, alguns materiais dos Correios eram descartados por desvios extremos de endereços e, por isso, alguns livros, que nunca chegaram aos olhos a que estavam originalmente destinados, acabaram na nossa casa, o que nos permitia a convivência com livros numa terra sem bibliotecas e livrarias. Livros de química, filosofia, história, receitas de comidas e romances eram comuns na minha casa.

Aquela profusão de livros e o acesso desordenado a eles me deixaram marcas até hoje. Desenvolvi um interesse enciclopédico pelos mais diversos assuntos, não obstante, desde aquela época, soubesse que nem sempre teria capacidade de aprofundar os detalhes de todas as matérias.

Nossa família se tornou tão intensamente do Recôncavo que quando li “Viva o Povo Brasileiro” entendi como era vã a esperança que um dia eu tive de não ter um encontro cara a cara com a morte. Como ensina João Ubaldo: “De mortes bonitas é farta a memória do Recôncavo, tantos os santos homens que se defrontaram de maneira edificante com a gadanha da Grande Ceifadeira, assim legando às gerações subseqüentes exemplos inesquecíveis do bem morrer. Não há mesmo família ilustre que não se compraza em relembrar as diversas mortes belas que cada uma conta em seu acervo tanatológico, seja pelas derradeiras palavras exaladas, seja pelo manto de doçura e paz a envolver o preciso momento do trespasse, seja pelo estoicismo do moribundo, seja pela venusta paisagem ou especialíssimas circunstâncias a cercar os óbitos repentinos, seja pela comoção do povo nas exéquias – tudo isto fazendo com que nestas questões letais, não exista no mundo lugar tão ufano.”

Em 2022 meu padrasto, Everaldo, completaria cem anos, mas ele nos deixou bem antes, levando com ele parte daquele mundo mágico que para mim era completamente real. Repentinamente, em 21 de junho de 1975, chegou a hora de começar a organizar o meu acervo tanatológico e o meu imbricamento mais íntimo com o mundo dos mortos.

Durante todo o ano havia a fabricação de licor na nossa residência, mas a partir do final de abril a casa se tornava uma verdadeira fábrica de licores. O tempo todo chegavam carregamentos de umbu, maracujá, limão, cajá, laranja e, principalmente, jenipapo. Tudo era ocupado por bacias, baldes, funis, cachaça, álcool, sacas de açúcar, muito algodão (que serviam de filtro), ajudantes, e, muita paciência. As encomendas eram imensas e no final de maio começavam as entregas principalmente em Santo Amaro, Cachoeira, São Felix, Cruz das Almas, Feira de Santana, Alagoinhas, Terra Nova, Candeias, Camaçari e Salvador. Sempre que possível eu estava com ele. Everaldo contratava kombis para a entrega e também usava o nosso fusca (Placa CQ0079) nesse trabalho. Foi nele, num sábado chuvoso, na véspera de São João, na BR-324, perto de Feira de Santana, que ele partiu, após um acidente, para servir seus licores no céu.

Lembro que no velório um grupo conversava animadamente sobre o acidente, e eu, lógico, tentando entender tudo aquilo, me coloquei de modo a ouvir a conversa que girava em torno das causas do sinistro:  Afinal, como Everaldo poderia ter capotado, sozinho, naquela reta? Alguém, então, deu o veredito, inquestionável e supremo, com uma certeza típica do povo do Recôncavo: “rapaz, onde já se viu ficar dirigindo meio-dia? É a hora que Cristo morreu e o diabo pensa que dominou o mundo, não se deve dirigir na hora do almoço: essa é hora da guerra do céu e do inferno. Ou você pensa que foi fácil pra Deus ressuscitar Jesus? ”.

Continuamos em Teodoro até 1977. Minha mãe resolveu retornar ao sul da Bahia. O Jenipapo já não era absoluto!

“Cantar é mais do que lembrar
É mais do que ter tido aquilo então
Mais do que viver do que sonhar
É ter o coração daquilo.”

Acima: Teodoro Sampaio (1855-1937), (Folha de S. Paulo. anos 1930).

– Este é o segundo texto da série HISTÓRIAS DA UFRB E DO RECÔNCAVO. Para entender esse projeto, leia aqui: http://paulonacif.com.br/2022/01/03/historias-da-ufrb-e-do-reconcavo/

 

AS BIFURCAÇÕES DA VIDA E A ELEIÇÃO DE 2002 PARA DIRETOR DA ESCOLA DE AGRONOMIA

– Este é o primeiro texto da série HISTÓRIAS DA UFRB E DO RECÔNCAVO. Para entender esse projeto, leia aqui: http://paulonacif.com.br/2022/01/03/historias-da-ufrb-e-do-reconcavo/

A Escola vivia a agonia de uma crise que se arrastava há décadas. Único centro de ensino superior federal no interior da Bahia, falta de pessoal, dificuldade de acompanhar as inovações tecnológicas e acadêmicas que ocorreram em outros centros, com forte endogenia, sem nunca ter encontrado um lugar institucional sustentável no conjunto da UFBA e, para completar, no Provão (Exame Nacional de Cursos) aplicado pelo INEP em 2001, exibimos a pior nota de um curso de agronomia do País, fato que ainda se repetiria em 2005, já no ENADE (Essas notas inclusive seriam responsáveis pela primeira crise da UFRB, em 2007).

Iniciamos 2002 na perspectiva de mais uma eleição entre os velhos grupos de professores que se revezavam na Diretoria desde sempre. Naquela sucessão, dois candidatos colocaram-se nos seus polos tradicionais: Luiz Gonzaga Mendes, de um lado e Valfredo da Silva Pereira, do outro.

O professor Luiz Mendes possuía um discurso liberal e meritocrático com articulações no Governo Federal (Fernando Henrique Cardoso) e Estadual (Paulo Souto), tinha capacidade de captar projetos de estudos e consultorias na área do agronegócio e assim arregimentava, compreensivelmente, o apoio de jovens professores e do setor mais ligado à produção científica, cansados de tantas crises. O professor Valfredo Pereira possuía o apoio dos setores docentes mais à esquerda, servidores e estudantes engajados no movimento estudantil.

Conhecedor daquelas disputas, não me entusiasmava com nenhum dos dois candidatos. Foi fácil perceber que havia um pequeno segmento que não se sentia representado por aquelas candidaturas, professores e técnicos-administrativos mais jovens e estudantes, todos com preocupações acadêmicas e uma visão progressista da sociedade. Assim, formamos um grupo que envolvia professores como Gilka, Alícia, Warli, Carlos Augusto e eu, e servidores técnico-administrativos como Edson, Manuel, Aída e Florisvaldo. A esse grupo juntou-se o professor Geraldo Costa, da velha guarda, mas que também percebia a exaustão daquela disputa antiga e repetitiva. No início, Geraldo considerava impossível entrarmos naquela disputa, mas logo transformou-se num alicerce fundamental de todo processo que se desenrolaria nos anos seguintes.

Definimos que o nosso candidato seria o professor Warli. No final do processo, o nosso candidato definiu não se inscrever, apesar de todos os nossos apelos. Mais uma vez a eleição ocorreu entre os dois velhos grupos.

Como esperado, Luiz Mendes ganhou a consulta com ampla votação nos três segmentos. Votei em Valfredo por não acreditar no modelo de universidade/empresa apresentado pelo professor Luiz Mendes e também porque pelo histórico da nossa relação não haveria nenhuma possibilidade de composição. Eu participara do Movimento Estudantil quando ele havia sido Diretor da Escola de Agronomia na década de 1980 e a nossa relação sempre foi de embates duros, deixando arestas nunca resolvidas.

Em 2002, eu era Chefe do Departamento de Química Agrícola e Solos e o grupo vencedor da eleição tratou de anunciar que enquanto eu fosse a representação do Departamento não haveria diálogo com a gestão vindoura. A vitória daquele grupo político anunciava um período de turbulências para mim, então, aproveitando um convite dos professores Nicholas Comerford e Jorge Gonzaga, comecei a planejar a minha ida para um pós-doutorado na Universidade da Flórida, projeto que foi abortado pelos acontecimentos supervenientes. Aqueles dois anos após o retorno do doutorado foram bem produtivos, consegui os primeiros financiamentos de projetos de pesquisa, estava concluindo a minha quinta orientação no mestrado da Escola de Agronomia e com boas parcerias com programas de pós-graduação e pesquisadores da EMBRAPA, CEPLAC, UFS, UESC, UFV e Universidade da Flórida.

Como muitas vezes ocorria na nossa Escola, a divulgação dos resultados da eleição não significava o fim das disputas e do processo eleitoral – os recursos e apelações eram comuns. O grupo derrotado, tendo o controle da Congregação da Escola de Agronomia, buscou alguma falha no processo eleitoral com vistas a anular eleição. Como sempre, conseguiu: Identificou-se que a representação estudantil já havia completado o seu mandato na Congregação e não houve ato oficial prorrogando os mandatos dos estudantes. Assim, a Justiça Federal determinou inválidos todos os atos da Congregação que contou com os votos dos estudantes. Isso incluía, é claro, a anulação da lista tríplice e, por consequência, a necessidade de uma nova eleição.

Confesso, eu considerava aquela anulação tempo perdido – era nítido que a comunidade expressou o desejo genuíno de ter o professor Luiz Mendes na sua direção. Com isso, criei arestas com o grupo que defendeu a tese da anulação. O professor Mendes falava, com razão: “Podem anular dez eleições, eu continuarei ganhando todas!”

Felizmente a vida é um livro a ser escrito por autores que nem sempre controlamos, e nos meses seguintes alguns fatos mudaram radicalmente a correlação de forças na Escola de Agronomia como poucas vezes na sua história. Em agosto, na Reitoria da UFBA, o Professor Heonir Rocha (com vínculos com Cruz das Almas e aliado do Professor Luiz Mendes) foi sucedido pelo professor Naomar Monteiro de Almeida-Filho e, em outubro, ocorreu a eleição de Lula para a Presidência da República. Com isso, tivemos uma clara fissura na hegemonia exercida pelo professor Luiz Mendes e ele, ao perceber isso, definiu não se candidatar para o novo processo de escolha de Diretor, anunciando o apoio ao professor Alino Santana que passou a ser o concorrente do Professor Valfredo na disputa.

Mais uma vez o nosso pequeno grupo definiu apoiar uma candidatura alternativa, representada pelo professor Warli e começamos a fazer campanha.

No último dia das inscrições, o professor Warli desistiu da candidatura. O nosso grupo definiu que ainda assim nos manteríamos no pleito com um candidato – precisávamos, no mínimo, marcar a nossa posição. Meu nome foi escolhido para representar o grupo. Contribuiu para isso eu ser o mais conhecido da comunidade acadêmica, afinal quinze anos antes eu havia atuado intensamente no movimento estudantil naquele campus e no período após a graduação tinha desenvolvido ações que geravam alguma visibilidade social. Não tive opção. Lembro que a professora Gilka redigiu o requerimento e imprimiu meu currículo – apresentamos o programa de gestão já elaborado para o nosso candidato anterior.

Naquele momento, a Escola estava bem dividida entre os dois candidatos e os setores tradicionais da esquerda mantiveram o seu apoio ao candidato Valfredo – havia um argumento razoável para isso: aquela disputa já se desenrolava há um ano e a minha candidatura foi colocada muito tarde. Eu brincava: “Não preciso de apoio para ganhar, preciso de apoio para governar!”. Com isso, todos ficavam tranquilos. Afinal, era um consenso que a minha candidatura não tinha chance!

Para a surpresa de todos, tivemos uma vitória avassaladora nos três segmentos, sempre com votação acima de 70%. Lembro que alguém do nosso grupo brincou: os novos ventos que sopram no País chegaram ao Recôncavo profundo (“E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo, meu medo”).

Durante a campanha, apresentamos a ideia de transformação da Escola de Agronomia numa instituição independente da UFBA. Eu insisti nessa ideia, mas isso parecia algo distante do debate da comunidade e, mesmo com a ascensão de Lula e o tema da interiorização do ensino federal superior na Bahia estar presente nos pronunciamentos do novo reitor da UFBA, isso não parecia uma temática pertinente para aquele nosso contexto (como abordarei em outros textos, depois aprendemos que essa reação à inovação não é restrita à comunidade da Escola de Agronomia).

É importante registrar que em meio a tantas instabilidades, o Diretor Pró-tempore, Professor Clóvis Pereira Peixoto, foi responsável por uma transição tranquila e transparente, colaborando assim para que o processo de transmissão de cargo ocorresse sem problemas. Um indicativo importante dessa postura foi a sua presença na minha solenidade de posse – fato raro naquela comunidade.

A nossa posse ocorreu na manhã do dia 14 de março de 2003. A percepção política de Geraldo Costa transformou a solenidade num evento memorável. Ele percebeu que era o primeiro grande evento que ocorria no Recôncavo desde a posse do Presidente Lula e buscou transformar esse momento num ato político de apoio ao nosso projeto. Sonia Bahia, esposa do professor Geraldo, esmerou-se em organizar um café da manhã típico do Recôncavo que serviu trezentos convidados. O sabor dos quitutes foi falado aos quatro ventos e por muito tempo. Ainda hoje devemos os custos dessa festa ao nosso professor. A presença de Prefeitos, Deputados e lideranças de toda a Bahia foi uma clara demonstração de que todos esperavam a apresentação de um projeto de impacto naquela manhã e ele veio na forma da proposta de criação da UFRB. A comunidade da Escola de Agronomia assistiu, um pouco assustada, àquilo tudo.

Demonstrando uma intenção que se expressaria na prática nos anos seguintes, o professor Naomar convocou o Conselho Universitário da UFBA que, sinais dos tempos, realizou a sua primeira reunião fora de Salvador. Naqueles três anos que seguimos até o início das atividades da UFRB, o professor Naomar visitou a Escola de Agronomia mais do que a soma de todos reitores da UFBA desde 1967, quando o campus de Cruz das Almas foi incorporado à universidade.

No dia da posse, o Conselho Universitário da UFBA autorizou o Reitor a criar uma comissão com vistas a apresentar o projeto de desmembramento da Escola de Agronomia e a criação da Universidade Federal do Recôncavo. Numa demonstração de compromisso com aquele projeto, Naomar indicou o seu Vice-Reitor, Francisco Mesquita para coordenar a Comissão.

Lembro que dias depois da posse, o pequeno grupo mais orgânico que dava sustentação à Diretoria me chamou para uma reunião. Em resumo, me foi dito que não era possível priorizarmos o projeto de luta por uma universidade naquele momento, precisávamos focar na resolução dos problemas da Escola de Agronomia.

A minha resposta foi no sentido de concordar com as preocupações, afinal a Escola de Agronomia realmente tinha problemas das mais diversas dimensões. Ponderei, no entanto, que as raízes dos nossos problemas estavam na institucionalidade constituída no processo de incorporação da Escola à UFBA e que não conseguiríamos ir longe na busca por soluções das nossas questões naquele arranjo institucional. Naquela estrutura não haveria salvação para a nossa Escola. Precisávamos usar a posição de mais antiga instituição federal de ensino sediada no interior da Bahia (desde 1859) para liderar um projeto de fôlego, afinal, o Governo Lula e o Reitorado de Naomar eram uma oportunidade única que não tínhamos o direito de abandonar.

Nessa noite, houve quem ponderasse sobre a pertinência de lutar por um Centro de Ciências Agrárias ou por uma Universidade Federal Rural da Bahia (UFRB). Felizmente venceu o projeto da Universidade Federal do Recôncavo (UFR).

Definimos naquela reunião que o esforço para a conquista da Universidade passaria a ser o principal eixo da gestão que se iniciava. Eram os primeiros dias de abril de 2003. Estávamos prontos para a luta!

HISTÓRIAS DA UFRB E DO RECÔNCAVO

 

Modéstia à parte, conheço o Recôncavo como poucos!

Cheguei nesse pedacinho de planeta com onze meses de idade. Nasci em Coaraci, no sul da Bahia, mas a minha família mudou para Teodoro Sampaio (fotos abaixo), nas cabeceiras do Recôncavo e lá eu vivi até os doze anos. Em 1976 mudei para Itabuna, mas nunca mais quebrei meus laços com Teodoro. Estudei agronomia em Cruz das Almas, me especializei em solos e participei de estudos sobre meio ambiente em todos os ecossistemas associados a essa região.

Em 1992, passei a ser professor da Escola de Agronomia da UFBA em Cruz das Almas e participei, numa posição bem privilegiada, do processo de implantação da UFRB. Não sem razão, há muito sou cobrado para escrever de forma sistematizada sobre a minha participação na construção da UFRB e minha relação com o Recôncavo. Resolvi, então, fazer uma aproximação dessa tarefa por meio do meu blog. Sempre que a inspiração chegar, escreverei sobre essas temáticas. Esse será o nosso ponto de partida, mas como saber onde isso dará?

 

Universidade Federal de Dona Canô – UFRB

Paulo Gabriel Soledade Nacif

“Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô”

Caetano Veloso

Hoje, 25 de dezembro, é dia do Recôncavo lembrar de Dona Canô. Há nove anos, neste dia, ela nos deixava em direção ao Orum!

Depois de muitos anos de implantada, a UFRB é uma realidade e a história da luta pela sua constituição foi, compreensivelmente, ficando para trás. Outro dia um intelectual fez questão de declarar que “a mobilização pela criação da UFRB pouco significado teve, na medida em que a expansão do ensino superior era algo anteriormente definido pelas estruturas de poder”. Prosseguindo, ele usou como prova de sua tese o Programa REUNI, que veio logo após a criação da universidade. Não estava presente no momento dessa declaração. Caso tivesse tido oportunidade, perguntaria a ele por que então a expansão do ensino superior federal na Bahia começou exatamente aqui? Por que começou aqui no Recôncavo e não em outras regiões com maior dinamismo econômico e maior importância política?

A Escola de Agronomia era um bom motivo? Um campus, com apenas um curso de graduação  e um mestrado, até poderia ser um bom motivo, mas não era suficiente para sensibilizar quem tomava decisões. Não há outro caso de um  campus, pequeno como o nosso, transformado em sede de uma nova instituição à mesma época.

Não tenho dúvidas, a mobilização da comunidade foi o fator determinante para que, registre-se, contra um prognóstico inicial presente no próprio Governo Federal, a expansão do ensino federal superior na Bahia começasse pelo Recôncavo. E, no percurso da UFRB, precisamos lembrar da participação de Dona Canô nessa história. A mobilização chegou a câmaras de vereadores, escolas, sindicatos, Clube de Diretores lojistas, deputados, senadores. Mobilizamos todo o Recôncavo.

Ainda em 2003, fui levado a Dona Canô, que logo disse: “Uma universidade vai ser tão bom. Eu me preocupo tanto com os jovens, eles param de estudar, ficam sem emprego. Eu vou falar com Lula”. E depois disso, ela participou ativamente da campanha, emprestando a sua imagem, sua assinatura, vestindo a camisa, dando declarações e, inclusive, falando com Lula. Em uma reunião em Brasília, após ser cobrado por grandes lideranças políticas sobre a criação da UFRB, o Presidente Lula disse com muito carinho: “Essa universidade do Recôncavo é um pedido de Dona Canô!” O professor Henrique Paim, ex-Ministro da Educação, sempre lembra da preocupação do Presidente Lula em cumprir os acordos com Dona Canô. Ele brinca: “Ela era poderosa!”

 

Em 2004, quando houve a reunião do Conselho Universitário da UFBA para aprovar o desmembramento da Escola de Agronomia para a criação da UFRB, lá estava Dona Canô no Salão Nobre da UFBA. Um Conselheiro, que fazia oposição ao mandato do Reitor Naomar, me chamou à parte e brincou: “Vocês estão indo muito rápido! Uma instituição como a UFBA não pode ficar sem um curso de Agronomia! Eu ia pedir vista ao Processo, mas fique tranquilo, não vou fazer isso na frente de Dona Canô”.

Em 2006, quando o Presidente Lula veio lançar a UFRB, lá estava Dona Canô. Ela foi até Cachoeira, visitou as obras do Quarteirão Leite Alves com o Presidente, mas a família preferiu que ela não o acompanhasse até Cruz das Almas para não cansá-la demais.

E, por favor, não duvidem: Dona Canô, até o final, sempre teve a exata dimensão do que fazia. Em fevereiro de 2012, portanto, poucos meses antes dela partir, em visita a Santo Amaro, com uma delegação da UFRB, fomos convidados para tomar um suco com Dona Canô. Ela disse: “A universidade agora tem que vir para Santo Amaro. Uma universidade vai ser tão bom. Eu sempre me preocupo tanto com jovens, eles param de estudar, ficam sem emprego.” Exatamente o que tinha dito há nove anos.

Nessa última vez em que estive com ela, chegamos à casa, conduzidos por Rodrigo, um de seus filhos. Eu estava muito tímido e também preocupado em causar algum incômodo a uma senhora de 104 anos. Disse-lhe: “Benção, Dona Canô”. E ela disse, brincando, com um sorriso delicado e me deixando à vontade: “Meu filho eu abençoo tanta gente simples aqui em Santo Amaro, quanto mais um REI-TOR”.

Sua vida merece ser lembrada e celebrada!

Lembro que ao final dessa nossa última visita, escutei de uma professora: “Em meio a tantas coisas geniais que Caetano Veloso e Maria Bethânia fizeram, ainda acho que a maior obra-prima deles é Dona Canô.” Realmente, revelar para o Brasil o encanto e a sabedoria singular de uma mulher comum do Recôncavo é uma tarefa para gênios!

Um dia ela voltará numa “estrela colorida e brilhante, de uma estrela que virá numa velocidade estonteante” e, mais uma vez, “aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto, quando terá sido o óbvio“.

Felicidade é brinquedo que não tem!

Paulo Gabriel Soledade Nacif

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. ”  (Trecho do Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade, 1928).

 

O personagem foi inspirado em São Nicolau, arcebispo de Mira na Turquia, no século IV, mas foi somente em 1931, por meio de uma campanha publicitária da Coca-Cola, que o Papai Noel ganhou o aspecto mais próximo do que conhecemos.

É incrível constatar que em 1932, já no ano seguinte à campanha da Coca-Cola, um baiano de Teodoro Sampaio enfrenta o mito de Papai Noel produzindo uma pérola preciosa, única e inesquecível – “Boas Festas”. A música estrutura o poema ou é o texto que inspira a música?

Essa música do meu conterrâneo Assis Valente salva o meu Natal. Sempre sinto muito orgulho quando vejo que o Natal brasileiro, apesar do Bom Velhinho com todo o seu excesso de roupas, todo o seu consumismo, suas frases feitas, sua neve e seus pinheiros, floridos de hipocrisias, foi “antropofagado” – digerido pela genialidade de Assis Valente, baiano lá de Bom Jardim (antigo nome de Teodoro Sampaio), nas cabeceiras do Recôncavo, à época um distrito de Santo Amaro. É isso: acontece que eu sou baiano… Assis Valente engoliu, regurgitou e novamente remastigou o colonizador.

“Boas Festas” é uma música tipicamente brasileira, cheia de ironias e desafios escondidos numa falsa ingenuidade.

Veja que gênio!

Ele começa candidamente, mas eufórico, feliz:

“Anoiteceu

E o sino gemeu

E a gente ficou

Feliz a rezar”.

Rapidamente, ele aproveita o momento de submissão e candura e faz o seu pedido:

“Papai Noel, vê se você tem

A felicidade pra você me dar”.

Como nunca recebe o presente, Assis Valente entra com toda a ironia de quem conhece todos os sotaques da tristeza:

“Eu pensei que todo mundo

Fosse filho de Papai Noel

E assim felicidade

Eu pensei que fosse uma

Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem.”

Tudo isso numa música linda, cheia de ritmo, lirismo, tensões e antagonismos que penetra e embala o Natal de norte a sul ou, como diz John Lennon: Todo o natal – do enfermo e do são, do rico e do pobre, do branco e do negro, do amarelo e vermelho.

A música “Boas Festas” é uma ópera, uma peça de teatro, um livro, um filme e também uma série para uma dessas plataformas da era digital. Faz a gente imaginar mil pessoas, idosas, adultas, jovens e crianças tristes que aguardam pela visita de um Papai Noel que nunca chega. É um pouco a história de vidas como as nossas, nada heroicas, comuns, com frustrações no passado e à espera das que surgirão nas esquinas e becos por onde vamos caminhar. Felicidade é brinquedo que não tem!

Como o mundo é cheio de contradições, o conjunto “As Melindrosas” (1978), Simone (1995), Gaby Amarantos (2013) e até Milton Nascimento (2015) fazem o movimento inverso do pretendido por Assis Valente e não se envergonham de defender o Papai Noel da Coca-Cola: Transformam essa obra-prima numa monótona batida de carnaval, eliminando toda a complexidade da criação. Antropofagia reversa?

Assis Valente, depois de viver em Alagoinhas, Senhor do Bonfim e Salvador, mudou-se com 17 anos para o Rio de Janeiro. Lá foi protético, teve seus desenhos publicados em revistas, escreveu peças de teatro, mas foi como compositor que alcançou grande sucesso nas vozes de ícones como Carmem Miranda, Dorival Caymmi, Orlando Silva e Herivelton Martins.

A sua música “Brasil Pandeiro” dialoga à perfeição com “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. Para essa gente bronzeada mostrar seu valor é necessário abrir a cortina do passado, tirar a mãe preta do cerrado. E botar o rei congo no congado.

Ele também compôs “Meu Moreno Fez Bobagem” e “Camisa Listrada”. Ainda hoje há imbecis para estranhar como Chico Buarque escreve letras de algumas músicas tão femininas, então, imagine como era na década de 1940 um compositor que escreveu: “Meu moreno fez bobagem / Maltratou meu pobre coração / Aproveitou a minha ausência / E botou mulher sambando no meu barracão / Quando eu penso que outra mulher / Requebrou pra meu moreno ver / Nem dá jeito de cantar /Dá vontade de chorar/ E de morrer”.

Enfrentando preconceito de cor, possivelmente tendo que explicar a sua orientação sexual, sempre com dificuldades de recolher os seus direitos autorais que hoje o transformariam num milionário e lidando com vícios como a cocaína, não é por acaso que Assis Valente é autor de expressões ainda populares no Brasil, como por exemplo nos versos: “Deixa estar jacaré/ Que o verão vai chegar/ Quero ver se a lagoa secar.”

A criatividade genial desse baiano o fez também um dos precursores das marchinhas juninas e já em 1933 ele compôs a música “Cai, cai, balão”, sempre com ironias tristes: “Eu também sou um balão / Vou subindo de mentira / No azul da ilusão / Meu amor foi a fogueira / Que bem cedo se apagou / Hoje vivo de saudade / É a cinza que ficou!”

Esse gênio da raça morreu no dia 06 de março de 1958, aos 47 anos. Num bilhete, deixou o último “verso”: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo. ”

É, Papai Noel: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.

01 de Novembro: Dia do Recôncavo

 

“E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo
Meu medo”
 Caetano veloso

No dia 01 de novembro de 1501, quando os navios da expedição portuguesa penetraram na maior baía do litoral que buscavam conhecer, o corpo de água que se impôs, pelas forças geológicas, nas entranhas das terras que o cercavam foi chamado de “Todos os Santos”. Antes, aquelas águas eram chamadas de Kirimurê, pelos Tupinambás. Começava ali uma nova estruturação sociocultural do Recôncavo, uma região que é estratégica para o entendimento do Brasil.

Já sugeri à UFRB e a representantes da sociedade baiana que o dia 01 de novembro fosse designado como “DIA DO RECÔNCAVO”. Ainda considero essa ideia relevante. Uma data para refletirmos tantos séculos da nossa construção sociocultural e que resulta na expressão do que somos e não somos no presente. É lamentável que o projeto do Instituto de Estudos Avançados do Recôncavo, apoiado, à época, inclusive pelo Governo Federal, não tenha prosperado.

Lembro de Gilberto Gil me orientando: “Reitor, sua missão em organizar a UFRB é muito importante para o nosso projeto de cultura: é impossível entender o Brasil, sem se entender a Bahia; é impossível entender a Bahia sem se entender o Recôncavo!

O termo Recôncavo, originalmente usado para designar o conjunto de terras em torno de qualquer baía, se associou, no Brasil, desde os primórdios da colonização, à região que forma um arco em torno da Baía de Todos-os-Santos. Essa região se caracteriza não apenas pelas suas incríveis variáveis físico-naturais, mas, sobretudo, por sua história e dinâmica sociocultural.

É bastante conhecida a emergência do complexo canavieiro ao norte dessa Baía (nos solos localmente denominados massapês), associado, no sul do Recôncavo e ao norte de Salvador, à produção de gêneros alimentícios, madeiras e fumo. Nesse processo, os colonizadores portugueses dizimaram dezenas de aldeias tupinambás e fizeram do Recôncavo um dos principais destinos da diáspora africana. Aqui, as ações dos donos do poder encontraram infinitas formas de resistência por meio de rebeliões, fugas, negociações e redimensionamentos culturais, exercitados pelos povos dominados.


O Recôncavo produziu grandes riquezas. No entanto, a resistência às inovações está entre os motivos que determinaram um grave atraso na sua modernização socioeconômica. A modernidade no Recôncavo, inclusive em Salvador, só ocorreu com a exploração do petróleo a partir da década de 1950, quando aconteceram importantes mudanças nas relações de poder nessa sociedade. Todo esse processo ajuda a explicar o lugar do Recôncavo nas divisões do trabalho em escalas global e nacional e seus desdobramentos locais. É notável a similaridade entre alguns mapas do Recôncavo propostos desde o século XVIII até o presente. Nesses estudos, o Recôncavo forma um semicírculo (com cerca de 10.500 Km2), abrangendo o norte de Salvador até Mata de São João e Alagoinhas; a área de solos massapês, localizada ao norte da Baía; as terras baixas de Maragogipe a Jaguaripe; e as regiões mais elevadas de Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus.É extraordinária a permanência dos vínculos que determinam a existência dessa região. Contribuem para isso, o subespaço longamente elaborado e por muito tempo estável, a presença de Salvador e da Baía de Todos-os-Santos, e, como lembra o geógrafo Milton Santos (1926-2001), “as iconografias que mantém a ideia de região através da noção de territorialidade, que une indivíduos herdeiros de um pedaço de território”. Percorrendo o Recôncavo, é possível observar entre seus habitantes uma sensação de pertencimento à região, o reconhecimento de uma história comum e uma interessante referência a muitos hábitos e tradições. Evidentemente, tudo isso foi forjado “aos trancos e barrancos” – no sentido que Darcy Ribeiro emprestou ao termo. Assumir o conceito de Território de Identidade não pode significar o esquecimento do velho (e ainda tão atual) Recôncavo da Bahia.

Na segunda metade do século XX, o Recôncavo passou por muitas transformações. Mudanças da matriz de transportes criaram uma densa rede de estradas e redefiniram o protagonismo de determinados centros urbanos. A área mais próxima de Salvador se constituiu numa região metropolitana (não confundir com a Mesorregião Metropolitana de Salvador). A exploração de petróleo e a instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari definiram novos subespaços. O desenvolvimento de Feira de Santana estabeleceu sombreamentos de áreas de influências. Com tudo isso, houve uma redução da coerência funcional da região, mas não suficiente para diminuir territorialmente ou conceitualmente o Recôncavo. Certamente, valorizar o Recôncavo tem importância estratégica para aqueles que consideram relevante, como ensinou Milton Santos: “… pensar na construção de novas horizontalidades que permitirão, a partir da base da sociedade territorial, encontrar um caminho que nos libere da maldição da globalização perversa que estamos vivendo e nos aproxime da possibilidade de construir uma outra globalização, capaz de restaurar o homem na  sua dignidade”.

Universidade Livre, Educação Popular

Paulo Gabriel Nacif

Enquanto a elite brasileira sempre deu pouca atenção à educação, no seio do nosso povo, nas lutas por liberdades, nasceram processos educativos únicos estabelecidos pelas classes populares, desde sempre, nas senzalas, no campo, nos quilombos, nas florestas, nos espaços ribeirinhos, nas periferias das cidades, nas fábricas, em sindicatos, nas comunidades de base, nas igrejas, nas universidades e, hoje, também, nos espaços virtuais, novos ou contíguos a muitos desses outros espaços. Antes ou no presente, não é possível entender a organização, a resistência, as lutas e conquistas do povo brasileiro sem a educação popular.

A educação popular teve um importante momento no Brasil no movimento anarcosindical da década de 1920, passando pelas campanhas de alfabetização na década de 1940 e 1950. Esse período se encerra com o golpe de 1964 e dá início a uma nova fase de resistência à ditadura e da luta pela redemocratização das décadas de 1970 e 1980, marcadas pelo fortalecimento dos movimentos de educação e da educação popular como instrumento de organização dos movimentos populares.

Em diferentes momentos históricos e nas mais diversas culturas, no Brasil e no mundo, sempre surgem processos que evidenciam a busca de homens e mulheres pela construção de espaços formais, não formais e informais de educação.

É possível citar as ágoras – espaços públicos por excelência, da cultura da política e da vida social dos gregos e onde Sócrates conseguiu atrair multidões de jovens, seduzidos por uma nova maneira de buscar a verdade. Ao sul,  atravessando o Mediterrâneo, na África Ocidental, temos a experiência tão rica e diversa dos Griot, pessoas que escolheram a vocação de preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo, por meio da música, como contadores de histórias e aconselhamento e, assim, ensinam a arte, o conhecimento de plantas, tradições, histórias.

Essa necessidade de preservar, espraiar e buscar novos conhecimentos sempre se intensifica em períodos de mudanças socioculturais paradigmáticas e foi assim que surgiram as primeiras universidades livres oitocentistas, voltadas à construção da cidadania por meio da democratização do conhecimento.

A medida que a democracia e a revolução tecnológica revelavam desafios inéditos aos europeus, em setores progressistas daquela sociedade afirmaram-se projetos voltados à formação de cidadãos para aquele novo mundo que nascia.  Aos olhos dos liberais, comunistas, anarquistas e republicanos, as universidades clássicas, demasiadamente burocratizadas e elitistas, não estavam aptas a responder aos desafios da democratização do ensino. Desse modo, esses setores construíram projetos de instrução e promoção das condições de vida do operariado. Foram inúmeros projetos de escolas profissionais, cartilhas e manuais de leitura popular e ensino laico, progressivamente generalizado a todos os grupos sociais.

Nesses espaços atuavam professores, estudantes e os próprios operários, dando origem ao conceito e modelo de universidade livre, tensionando o surgimento de extensões universitárias informais em toda a Inglaterra oitocentista, a partir da experiência da Universidade de Cambridge. Aquelas universidades livres planejavam seus cursos conforme a necessidade do público ao qual se dirigiam para que ele estivesse apto a   trabalhar o mais rápido e breve possível. Trata-se, portanto, de um modelo calcado no aspecto social de democratização do ensino e na formação profissionalizante. Nesse mesmo movimento surgem as experiências designadas por “University Stettlements”, promovidas por estudantes universitários que realizavam sessões de esclarecimento em bairros operários, constituindo-se na base de projetos de universidades populares que se espalharam por toda a Europa, entre o final do século XIX e início do século XX. Inclusive, o Caso Dreyfus (1894 a 1906) influencia o surgimento de muitas iniciativas nesse campo. Evidentemente o decisivo papel exercido nesse processo pelo romancista Émile Zola, marca o reconhecimento social do “intelectual”, expressão usada para designar professores, escritores, pintores e atores que passam representar interesses mais universais de justiça e isso estimula a vontade coletiva de contribuir para o fortalecimento da cidadania por meio da educação.

É certo que em decorrência do novo significado que o conhecimento ganha para toda a sociedade contemporânea, notadamente para a cultura, a economia, o respeito à diversidade e a sustentabilidade, não há dúvidas que há possibilidades para construção de espaços relacionados ao fortalecimento de ações associadas à educação ao longo da vida e é nesse campo que firmamos a defesa da importância da educação popular na contemporaneidade. Referimo-nos, portanto, a uma atualização conceitual das universidades livres oitocentista, como, de resto, ocorre em iniciativas semelhantes em todo o mundo: diante dos desafios paradigmáticos da contemporaneidade, criar um espaço para democratizar a cultura de modo a possibilitar a autoconstrução cidadã.

Uma universidade livre tem como objetivo maior oferecer alternativas culturais e de formação educacional à sociedade, com uma estrutura complementar às ofertas institucionais voltadas à educação formal. Essas universidades livres, tem como característica definidora a liberdade para gerar e transferir conhecimentos sem registros ou permissões governamentais.

São inúmeros exemplos em todo o mundo de iniciativas de sucesso de universidades livres, havendo, inclusive, a Associação de Universidades Populares da França (AUPF) e a Associação das Universidades Populares da Suíça (AUPS).  Nos EUA é possível citar a John C. Campbell Folk School, na Carolina do Norte e a Driftless Folk School, no Wisconsin. No Brasil, dois exemplos importantes são a Universidade Livre do Meio Ambiente, criada em 5 de junho de 1991, em Curitiba – PR, e em pleno funcionamento e a Universidade Livre de Música (ULM) que teve Tom Jobim como primeiro reitor e presidente do conselho, criada em 1989 e, infelizmente, convertida no Centro de Estudos Musicais Tom Jobim, em 2001.

Esse conjunto de instituições possui arranjos e objetivos e públicos muito variáveis, mas tem sempre como princípio fundamental contribuir com a educação ao longo da vida e a educação popular na sociedade em que se insere. É uma incógnita o porquê de experiências de universidades livres não se amplia no Brasil.

A necessidade da adoção da educação ao longo da vida como base norteadora das políticas educacionais e de ação dos movimentos sociais requer uma articulação que busque estabelecer a sinergia dos diferentes modos de aprendizagem de maneira que ela se amplie para toda a duração da vida e generalize-se para todos os domínios dessa vida. Mais que isso, é fundamental ter como meta a construção de uma sociedade em que todas as pessoas possam participar desse processo de aprendizagem, planejando elas próprias seus percursos formativos e a associação destes com a sua inserção familiar, cultural, ambiental, social e, particularmente, no mundo do trabalho. Adicionalmente esforços objetivos devem incentivar e dotar as pessoas de meios para participar mais ativamente em todas as esferas da vida pública moderna, em especial na vida social e política em todos os níveis da sua comunidade local, estadual, nacional e mundial.

Sem dúvidas, no Brasil atual, mais do que nunca precisamos retomar com força as experiências da educação popular e, sem dúvidas, projetos de universidades livres podem ser um caminho importante para tais processos. Só assim teremos condições de enfrentar as ameaças  presentes pelo fortalecimento do autoritarismo, da relativização da verdade e da alienação.

 

Eu Acredito em Livros de Auto-Ajuda?

Lembro que eu li o texto abaixo de João Pereira Coutinho em 2008, num momento de turbulência profissional e pessoal. A avaliação das instituições de ensino superior pelo ICG (índice Geral de Cursos) colocava a nascente UFRB como a detentora do mais baixo indicador dentre as instituições públicas do Brasil e um exame de rotina identificou um câncer na minha tireoide. Por isso, talvez, essa história de  Thomas Carlyle me marcou profundamente e ainda hoje eu lembro dela quando estou diante de um infortúnio (felizmente são raros). Sempre que volto a esse texto sorrio e penso:

“ainda bem que sempre estive aberto a descobrir novas perspectivas de leitura de mundo. Caso não fosse assim, talvez evitasse a leitura de João Pereira Coutinho por ele ser um empedernido conservador e  perderia a chance de conhecer esse texto – joia rara!”

A Arte de recomeçar

Por João Pereira Coutinho
Jornal Folha de São Paulo. 24/10/2007

Nobreza humana não está na coragem com que recebemos o infortúnio, mas na nossa capacidade de prosseguir.

OS PESADELOS acontecem. Uns tempos atrás, um conhecido escritor português contava-me que, chegando ao aeroporto de Caracas, o seu laptop foi roubado sem deixar rastro. Mas o pior não foi o laptop. Nunca é. O pior foi o conteúdo do laptop: um romance original, ou uma parte generosa dele, que só existia no computador. Nenhuma cópia de segurança em casa.

Nenhum manuscrito. Nada de nada capaz de compensar a perda absoluta. Meses de trabalho, anos de trabalho, perdidos em segundos.

Ouvi o infortúnio com certo horror e fascínio. E depois recordei a mais bela história intelectual da Inglaterra do século 19, que sinceramente me comove até às lágrimas. Aconteceu com Thomas Carlyle, o notável historiador escocês, tal como ele a relata nas suas memórias. Durante anos de intenso labor e habitando uma pobreza excessiva, Carlyle completara o primeiro volume da sua história da Revolução Francesa. Contara com a ajuda do filósofo John Stuart Mill, que emprestara livros e dinheiro. E quando Stuart Mill, no final da odisséia, pediu de empréstimo o único manuscrito do trabalho para ler, aquele manuscrito que consumira a saúde e a juventude de Carlyle, este o emprestou, grato e honrado.

Foi uma hora funesta. No dia seguinte, Mill regressava, branco como um fantasma, para comunicar que o manuscrito fora acidentalmente consumido pelas chamas.

Thomas Carlyle

Foto:Wikipédia

A descrição que Carlyle nos deixou nas “Reminiscences” ainda hoje emociona qualquer cristão: o estoicismo com que a notícia é recebida, apesar da mortificação interior; as três horas de conversa esforçadamente banal, como se fosse Mill a necessitar de consolo; e quando este deixou finalmente a casa do historiador, para infinito alívio do casal, a mulher de Carlyle, incapaz de fingir normalidade, abraçando um homem destroçado e chorando com o dramatismo que apenas concedemos às óperas clássicas. E as palavras de Carlyle, finalizando a cena, dirigidas a um Deus em que ele, para tragédia sua, não acreditava.

Mas a história não acaba aqui. A história acaba na minha estante, quando folheio, com uma reverência absoluta, a sua história da Revolução Francesa. Porque, depois da notícia das chamas, Carlyle sentou-se à mesa e recomeçou a partir das cinzas. Cada palavra, cada linha. Cada página.

Hoje, quando releio esse monumento de erudição, paixão e estilo, não encontro apenas um dos mais poderosos relatos sobre a glória e a miséria de 1789: as aspirações igualitárias e libertadoras da Bastilha que terminaram, como usualmente terminam, no terror das guilhotinas.

Encontro a evidência de que a nobreza do espírito humano não está na coragem com que recebemos o infortúnio. Mas na forma como o recebemos e, apesar de tudo, somos capazes de continuar. Mesmo quando o mundo nos parece perdido.

Livros de auto-ajuda? Sim, leitores; afinal, eles existem. Nas minhas piores horas, olho para esse volume aparentemente anônimo entre tantos volumes anônimos e há uma gratidão silenciosa e interior que me faz, tantas vezes, recomeçar.

Orgulho das Heranças (malditas): Um pouco de mim, antes de mim

Paulo Gabriel Soledade Nacif

Meus pais, Marlene e Levino, se desdobram em João, Maria, Gabriel e Marcionília. E cada um se desdobra em mais dois e em mais quatro e, cada um deles, em muitos outros.

Maria Teixeira (1903-1985), nasceu em Bom Conselho, hoje Cícero Dantas, nordeste da Bahia, de um primeiro casamento de Veridiano Bispo Teixeira e dona Maria. Veridiano, sanfoneiro respeitado, largou a família e foi tocando sua sanfona até chegar em Itabuna, no sul da Bahia. Lá constituiu uma nova família. Minha bisavó, deixada sozinha, “morreu de desgosto” e minha avó se tornou, ainda menina, chefe daquela família de crianças, tomando conta de uma roça no meio da caatinga do nordeste da Bahia.

Certa feita o bando de Lampião, acompanhado de alguns parceiros da região, passou por aquela roça e todos os irmãos, sob o comando de minha avó, foram obrigados a servir comida para toda a tropa – como ela mesma contava, todos tremendo de medo. Após o serviço, Lampião comentou que além de ajeitada ela trabalhava bem e mandou que ela pegasse as roupas para seguir com o bando. Graças à intervenção dos homens do lugar que acompanhavam o bando e argumentaram que ela era o arrimo daquela família, o Coronel Virgulino resolveu deixar para levá-la em outra ocasião. Depois desse susto a minha avó seguiu os passos do pai e foi para Itabuna, com os irmãos, deixando para trás as terras da família, griladas rapidamente por algum poderoso do lugar.

Conta-se na família que essa minha avó descendia diretamente do povo de Antônio Conselheiro. A aparência dela lembrava muito aqueles Conselheiristas que sobreviveram ao massacre do Estado Brasileiro contra Canudos e, considerando que todas as referências que eu tenho dela são em torno de ladainhas, rezas e igrejas, é muito provável que isso seja verdade. Lamento muito não ter aproveitado os anos que convivi com ela para detalhar todas essas histórias.

João Soledade (1885-1981) nasceu em Cachoeira no Recôncavo e ainda adolescente mudou para Salvador, indo depois tentar a vida em Itabuna. Lá se tornou um fazendeiro e depois faliu. Lembro dele, ao final da vida, em delírios, se queixando de que a riqueza dele tinha sido desviada por meus tios, uma vez que ele não concebia ter chegado pobre ao fim da vida.

Não conheci meus avós paternos. Meu avô faleceu bem antes do meu nascimento e a minha avó pouco depois. Apesar da distância da família paterna, aos poucos fui recompondo um pouco das histórias deles.

Marcionília, era filha de ex-escravos e herdou desses meus bisavôs uma fazenda em Coaraci. Negra, tranquila, sábia, muito alta e magra – são essas características dela que me chegam. Ela se casou com Gabriel Nacif, um libanês que como tantos outros “turcos” imigraram para o sul da Bahia nas primeiras décadas do século XX.

A história do casamento de meus avós paternos poderia ser contada num livro de Jorge Amado, como “A descoberta da América pelos Turcos”, mas nada indica que minha avó tinha o aziúme de Adma, centro dos esponsais. No posfácio desse livro de Amado, José Saramago lembra que “a generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias… recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido. ”

Ouvi de membros da minha família paterna: “É claro que seu avô deu o golpe do baú. Ele era lindo! E sua avó era uma negra, filha de escravos”.  Para quem busca entender o sentido profundamente racista da sociedade brasileira, aconselho prestar atenção nas famílias multirraciais, tão comum nessas terras. O racismo cordial está presente de maneira explícita e permanente, entre irmãos, primos, tios e compadres.

Marcionília me outorgou a certeza dos meus vínculos não apenas diretos, mas, principalmente, imediatos com os negros escravizados e com a África. Graças a ela construí uma eterna ironia às pompas da sociedade do cacau.  Gabriel Nacif me deixou como herança todo o  oriente médio e os seus mistérios que se tornam ainda maiores quando percebidos a partir do meu lugar – a periferia do Novo Mundo. O estímulo a entender o orientalismo, via Edward W. Said serviu não apenas para perceber os consensos que permitem e legitimam as atrocidades da Europa e da EUA no Oriente Médio, mas, também, entender como modelos similares são construídos em relação a África, à América e aos indígenas.

Sempre tive interesse pela história dos que vieram antes de mim. Lamento saber tão pouco sobre eles. Assim também acontecerá comigo no futuro. Chegarei de algum modo aos que me seguirem, no início de maneira mais intensa e depois de forma cada vez mais difusa, sendo misturado a tantos outros, até ser completamente esquecido. Mas de algum modo estarei sempre lá, como os meus antepassados estão hoje em mim.

É compreensível que assim seja. A paisagem da existência vai sendo regulada por diferentes zoom in e zoom out de acordo as distâncias focais estabelecidas pelo incontornável comando do espaço/tempo. Apesar da variação do foco, acredito, nos mantemos de alguma forma conectados na transcendência misteriosa do pulso de vida.

Essas pessoas compuseram o meu ser de maneira densa, profunda, definitiva. Conhecer essas histórias e suas lutas me serviu de grande estímulo para vencer desafios, preconceitos e construir uma forma de me perceber no mundo.

Biologicamente elas estão nas minhas células, nos meus cromossomos, nos meus traços, no meu nariz, estiveram no meu câncer.

Emocionalmente contribuem com a minha forma de pensar o mundo. Não posso fugir nem mesmo às maldições que esses povos da minha ascendência carregam sobre a terra.  De vários ancestrais recebi a maldição de Noé sobre Canaã e assim tenho que resistir a todo o tempo ao racismo que a cor da minha pele desperta. Também, não poucas vezes percebi um outro racismo:  Herdei a maldição que o ocidente lançou contra os árabes e ela já me chegou de muitas formas, inclusive nas vezes em que fui quase barrado em aeroportos de alguns países simplesmente pelo meu sobrenome “Nacif”. Num dos casos, lembro de alguém ter lembrando: “o seu nariz te denuncia”.

Quando eu vejo a história desses meus avós penso o quanto excepcional é a minha existência.  É como se quatro pessoas, uma em cada extremidade de uma grande praça (norte, sul, leste e oeste), e sem saber o que os outros estavam fazendo, lançassem pedras para cima e quatro se tocassem em cheio no ar. Talvez mais do que pedras jogadas numa praça tratam-se de quatro meteoros vindo dos confins do universo que caíram ao mesmo tempo no mesmo lugar da terra e me geraram.

Desde sempre me apaixonei por essas histórias e tenho profundo orgulho pelas marcas no meu corpo e na minha alma deixadas por essas pessoas. Esse conhecimento gera forças  para enfrentar os astros, os deuses, os dogmas, os profetas e, assim, buscar transformar todas as maldições em bênçãos e orgulho que a existência a partir de João, Maria, Gabriel e Marcionília, verdadeiramente, representa.