Fim do Exílio: De volta ao Recôncavo

Após quatro anos de “autoexílio”, agora em abril retorno à UFRB e ao Recôncavo. No final de março de 2015 aceitei o convite do Ministro Renato Janine para liderar a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC) e me afastei da Reitoria da UFRB, após um longo Reitorado (https://www.youtube.com/watch?v=LFSEaCQHGms&t=30s).

Ao decidir seguir aquela trilha me preparei para passar, ao menos, quatro anos fora da UFRB. Arbitrariamente considerei que esse era o tempo necessário para vivenciar outros Recôncavos e me distanciar da experiência tão intensa, rara e, muitas vezes, solitária, que foi participar de todas as etapas de concepção do projeto, coordenação da campanha da conquista e implantação da UFRB. Para permanecer quase nove anos nessa função, tive que me convencer profundamente sobre a minha missão naquele lugar. Os indicadores educacionais ainda exibidos pela Bahia nos impõem um constrangimento ético incontornável. Por isso, considerava, considero, que construir um processo qualificado de inclusão educacional da nossa população é, na contemporaneidade baiana, o mais revolucionário dos desafios públicos.

Nunca gostei da ideia retrô de que a melhor fase da nossa vida é aquela experiência que já aconteceu. Por mais rica que tenha sido a nossa vida é fundamental ter a expectativa de que uma vivência ainda mais rica está nos esperando em algum lugar do futuro. Por isso me causa incomodo me submeter à cômoda lógica de que a minha “validação social” se dará por algo cristalizado no passado – por maior que seja a magnificência que abarque essa referência. Isso talvez explique a vontade de me lançar para além do Recôncavo, ao mundo Reconvexo, após nove anos de Reitorado e treze anos imerso no processo de criação da UFRB e de recriação do Recôncavo. Sim, parece que esquecemos que a recriação do Recôncavo sempre esteve subliminarmente presente como objetivo estratégico em todas as ações desenvolvidas em torno da implantação da UFRB. “E o recôncavo, o recôncavo, o recôncavo?! Meu medo!”

Esse período pós-UFRB foi a oportunidade que eu precisava para entender melhor a educação brasileira. É certo que tive o privilégio de construir um rico itinerário formativo nessa área e a minha gratidão é imensa por todos que possibilitaram isso.

Passei por Brasília e no MEC pude acompanhar o final do período mais transformador da educação brasileira – tenho certeza que a história da educação brasileira terá os Governos Lula e Dilma como marco histórico. Após o Golpe de 2016 fui para a UFSB e lá pude ajudar o Reitor Naomar Monteiro de Almeida-Filho na sua luta por construir uma universidade efetivamente associada a educação básica e pude acompanhar de perto uma oposição irrazoável a esse processo. As forças conservadoras, à esquerda e à direita, são verdadeiramente impressionantes e multifacetada nesse velho Brasil.

A seguir fui conviver com a rica gente pobre de Lauro de Freitas e o sonho dessa gente em ter uma escola que ensine e proteja seus filhos. Não existe nada tão brasileiro quanto a vontade da conquista de uma escola pública que proteja e projete um futuro digno para os nossos filhos. Também, nada é tão brasileiro quanto aos instrumentos que as nossas elites constroem para boicotar a realização dessa conquista, enquanto garantem candidamente que acreditam profundamente que “só a educação nos salvará”.

A escola de Lauro, composta por famílias que em significativa parcela integram o sistema do Programa Bolsa-Família, é uma experiência impressionante e muito me ensinou. Em meio a tantos desafios foi profundamente educativo conviver com tantas professoras que conseguem se renovar continuamente e construir histórias profissionais dignas de todo nosso respeito. De lá pude perceber em outra perspectiva a distância abissal que a universidade está dessa realidade.

Planejei ajudar a nossa querida Prefeita Moema Gramacho por dois anos e tenho muito orgulho de ter cumprido esse período que assumi como uma missão revolucionária. Sempre brinquei com a Prefeita: “se Paulo Freire ficou dois anos na Secretaria de Educação de São Paulo, eu também posso ficar dois anos aqui em Lauro. ”

Agora volto para o Recôncavo. Bem sei que a UFRB que encontrarei difere daquela que eu entreguei há quatro anos. Para além das questões nacionais, aqueles que me sucederam possuem uma visão diferenciada sobre diversas dimensões que compõem o espectro da missão universitária, mas faz parte do amadurecimento aprender a conviver e respeitar essas legítimas diferenças democráticas. Terríveis são os desafios que o autoritarismo do cenário nacional projeta sobre todos nós!

Que fazer? Seguir em frente, reinventando a vida e impedindo que a indiferença e a ruindade triunfem. Ainda temos muitos olhos lúcidos. Cada dia me convenço que essa é a maior missão da educação, manter os nossos olhos lúcidos. Lembro de Saramago em “Ensaio sobre a cegueira”: “aproveitamos o acaso de haver aqui ainda uns olhos lúcidos… se um dia eles se apagarem, não quero nem pensar, então o fio que nos une a essa humanidade partir-se-á, será como se estivéssemos a afastar-nos uns dos outros no espaço, para sempre, e tão cegos eles como nós.”

Não, não quero nem pensar!, por isso quero tanto me dedicar, mais e mais, à educação, única forma de manter o fio que nos une a essa humanidade. E enquanto esse fio existir a barbárie que nos espreita não vencerá, nem no Recôncavo, nem no seu Reconvexo.

9 thoughts on “Fim do Exílio: De volta ao Recôncavo

  1. Seja bem vindo filho da Bahia!

  2. Leonandes Santana

    Bravo, meu caro Professor Nacif, pela contextualização histórica e futura de tão rara lucidez, nesses tempos tão bicudos e incertos.
    Paz e sucesso na jornada que segue!

  3. José Antônio Matos

    Paulo, parabéns pela belíssima caminhada! Tenho certeza que os baianos se orgulham ainda mais da Bahia, quando se reconhecem e identificam em você, toda a nossa Baianidade nagô. Conviver com você e ter o prazer de discutir a vida, a educação, sao oportunidades e experiências dignas de ampliação do nosso Qualis, espero um dia a CAPES validar.
    Enfim, você é um ser humano agradável, acessível e amigo. Feliz pelas suas vitorias e convicto do seu sucesso nesta nova fase da vida. Conte comigo, para ajudar a suavizar ainda mais o acesso da nossa sofrida população aos caminhos tortuosos da educação pública de qualidade.

    Abraços

    José Antônio Souza Matos

  4. Manoel de Paula Sacramento

    Seja bem vindo a nossa querida UFRB Professor Paulo, te acolhemos de braços abertos porque o bom filho retorna a casa do pai. Reconhecemos o que somos hoje Universidade renomada, pois V . Excia. foi um dos pilars fundamental para essa realidade. Vamos juntos continuar lutando por uma Universidade de excelência.

  5. Pena, sentindo sua falta. Obrigada pelo apoio e compreensão para comigo!

  6. Professor Paulo, foi um imenso prazer e uma experiência única trabalhar com o senhor em Lauro de Freitas.

  7. Francisca Elenir Alves

    Muito boa sua reflexão sobre sua linda história e trajetória. Que possamos sempre renovar nossas energias na luta por uma educação inclusiva, emancipafora e amorosa, como nos ensinou nosso mestre Paulo Freire. Conte comigo. Cheiro

  8. Tomaz aroldo da mota santos

    Caro Paulo, minhas sinceras congratulacoes pelo trabalho que realizou no mec e lauro de freitas. No mec, ja em condicoes dificeis especialmente pela crise politica que culminou com o golpe. Forte abraco e bom trabalho na sua volts a ufrb com nova experirncia de vida.tomaz

  9. Um texto primoroso e que remete muito bem para uma reflexão dual:o ser e sua obra.Um universo de esperança,emoção e a plenitude que circunda a dupla realização.Caminhos,trajetória e o olhar que desnuda incontida este projeto vitorioso. E por ser assim só o senhor do tempo para este reconhecimento.

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