CURRÍCULO? TOCA RAUL! (Hora do Recreio)

Um dia, há uns trinta anos, eu conheci um velho educador e nos tornamos bons amigos. Sempre que nos encontrávamos ele me contava histórias incríveis sobre a vida, as escolas, os professores, os estudantes, os processos de ensino/aprendizagem e muito mais. Nesses trinta anos ele se tornou um verdadeiro orientador do meu processo de formação na área de educação.
Ele faleceu com bem mais de cem anos de idade e, pouco antes desse acontecimento eu realizei uma última visita ao meu querido mestre.
Iniciamos uma boa conversa e eu me atrevi a perguntar para ele se já era a hora dele me contar a história sobre o dia em que ele se encontrou com o Currículo. Sim, ele sempre me dizia que a história mais incrível que ele viveu não foi o dia em que ele encontrou o homem que nasceu “Há dez mil anos atrás”. Para ele o dia mais fantástico da sua vida foi o encontro que ele teve com o Currículo, em carne e osso. Mas, dizia ele, essa era uma história que eu precisava amadurecer muito para entender. E eu aguardei com muita ansiedade essa lição.
Então, nessa última visita, eu falei, Mestre, será que o senhor pode me contar aquela história do seu encontro com o Currículo?
Ele sorriu, ficou pensativo e depois me disse:
– Ah, tudo bem, mas será que você já está preparado pra ouvir? O meu encontro com o Currículo é realmente surpreendente!

E eu, ansioso, disse, sim, estou! Por favor, Mestre…
Após se ajeitar na cama, finalmente ele começou a me contar como foi o encontro entre entre ele e o Currículo …
– Eu vivia me perguntando, quem afinal é esse Currículo? Li todos os livros possíveis, estudei as escolas conservadoras, progressistas, alternativas, tudo! Considerei todas as possibilidades, andei pelos quatro cantos do mundo procurando e nada!, não encontrava respostas que me convencessem! Veja você: Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que ele me falou:
“Às vezes você me pergunta por que é que eu sou tão calado, não falo de amor quase nada, nem fico sorrindo ao teu lado.
Você pensa em mim toda hora, me come, me cospe, me deixa, talvez você não entenda, mas hoje eu vou lhe mostrar.
Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar, eu sou as coisas da vida, eu sou o medo de amar.
Eu sou o medo do fraco, a força da imaginação, o blefe do jogador, eu sou, eu fui, eu vou.
Eu sou o seu sacrifício, a placa de contramão, o sangue no olhar do vampiro e as juras de maldição.
Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga, eu sou a beira do abismo, eu sou o tudo e o nada…
Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar que eu sou feito da terra do fogo, da água e do ar.
Você me tem todo dia, mas não sabe se é bom ou ruim mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim.
Das telhas, eu sou o telhado, a pesca do pescador, a letra A tem meu nome, dos sonhos, eu sou o amor.
Eu sou a dona de casa, nos pegue-pagues do mundo, eu sou a mão do carrasco, sou raso, largo, profundo.
Eu sou a mosca da sopa, o dente do tubarão, eu sou os olhos do cego e a cegueira da visão.
Eu sou o amargo da língua, a mãe, o pai e o avô, o filho que ainda não veio, o início, o fim e o meio.”

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