AS BIFURCAÇÕES DA VIDA E A ELEIÇÃO DE 2002 PARA DIRETOR DA ESCOLA DE AGRONOMIA

– Este é o primeiro texto da série HISTÓRIAS DA UFRB E DO RECÔNCAVO. Para entender esse projeto, leia aqui: http://paulonacif.com.br/2022/01/03/historias-da-ufrb-e-do-reconcavo/

A Escola vivia a agonia de uma crise que se arrastava há décadas. Único centro de ensino superior federal no interior da Bahia, falta de pessoal, dificuldade de acompanhar as inovações tecnológicas e acadêmicas que ocorreram em outros centros, com forte endogenia, sem nunca ter encontrado um lugar institucional sustentável no conjunto da UFBA e, para completar, no Provão (Exame Nacional de Cursos) aplicado pelo INEP em 2001, exibimos a pior nota de um curso de agronomia do País, fato que ainda se repetiria em 2005, já no ENADE (Essas notas inclusive seriam responsáveis pela primeira crise da UFRB, em 2007).

Iniciamos 2002 na perspectiva de mais uma eleição entre os velhos grupos de professores que se revezavam na Diretoria desde sempre. Naquela sucessão, dois candidatos colocaram-se nos seus polos tradicionais: Luiz Gonzaga Mendes, de um lado e Valfredo da Silva Pereira, do outro.

O professor Luiz Mendes possuía um discurso liberal e meritocrático com articulações no Governo Federal (Fernando Henrique Cardoso) e Estadual (Paulo Souto), tinha capacidade de captar projetos de estudos e consultorias na área do agronegócio e assim arregimentava, compreensivelmente, o apoio de jovens professores e do setor mais ligado à produção científica, cansados de tantas crises. O professor Valfredo Pereira possuía o apoio dos setores docentes mais à esquerda, servidores e estudantes engajados no movimento estudantil.

Conhecedor daquelas disputas, não me entusiasmava com nenhum dos dois candidatos. Foi fácil perceber que havia um pequeno segmento que não se sentia representado por aquelas candidaturas, professores e técnicos-administrativos mais jovens e estudantes, todos com preocupações acadêmicas e uma visão progressista da sociedade. Assim, formamos um grupo que envolvia professores como Gilka, Alícia, Warli, Carlos Augusto e eu, e servidores técnico-administrativos como Edson, Manuel, Aída e Florisvaldo. A esse grupo juntou-se o professor Geraldo Costa, da velha guarda, mas que também percebia a exaustão daquela disputa antiga e repetitiva. No início, Geraldo considerava impossível entrarmos naquela disputa, mas logo transformou-se num alicerce fundamental de todo processo que se desenrolaria nos anos seguintes.

Definimos que o nosso candidato seria o professor Warli. No final do processo, o nosso candidato definiu não se inscrever, apesar de todos os nossos apelos. Mais uma vez a eleição ocorreu entre os dois velhos grupos.

Como esperado, Luiz Mendes ganhou a consulta com ampla votação nos três segmentos. Votei em Valfredo por não acreditar no modelo de universidade/empresa apresentado pelo professor Luiz Mendes e também porque pelo histórico da nossa relação não haveria nenhuma possibilidade de composição. Eu participara do Movimento Estudantil quando ele havia sido Diretor da Escola de Agronomia na década de 1980 e a nossa relação sempre foi de embates duros, deixando arestas nunca resolvidas.

Em 2002, eu era Chefe do Departamento de Química Agrícola e Solos e o grupo vencedor da eleição tratou de anunciar que enquanto eu fosse a representação do Departamento não haveria diálogo com a gestão vindoura. A vitória daquele grupo político anunciava um período de turbulências para mim, então, aproveitando um convite dos professores Nicholas Comerford e Jorge Gonzaga, comecei a planejar a minha ida para um pós-doutorado na Universidade da Flórida, projeto que foi abortado pelos acontecimentos supervenientes. Aqueles dois anos após o retorno do doutorado foram bem produtivos, consegui os primeiros financiamentos de projetos de pesquisa, estava concluindo a minha quinta orientação no mestrado da Escola de Agronomia e com boas parcerias com programas de pós-graduação e pesquisadores da EMBRAPA, CEPLAC, UFS, UESC, UFV e Universidade da Flórida.

Como muitas vezes ocorria na nossa Escola, a divulgação dos resultados da eleição não significava o fim das disputas e do processo eleitoral – os recursos e apelações eram comuns. O grupo derrotado, tendo o controle da Congregação da Escola de Agronomia, buscou alguma falha no processo eleitoral com vistas a anular eleição. Como sempre, conseguiu: Identificou-se que a representação estudantil já havia completado o seu mandato na Congregação e não houve ato oficial prorrogando os mandatos dos estudantes. Assim, a Justiça Federal determinou inválidos todos os atos da Congregação que contou com os votos dos estudantes. Isso incluía, é claro, a anulação da lista tríplice e, por consequência, a necessidade de uma nova eleição.

Confesso, eu considerava aquela anulação tempo perdido – era nítido que a comunidade expressou o desejo genuíno de ter o professor Luiz Mendes na sua direção. Com isso, criei arestas com o grupo que defendeu a tese da anulação. O professor Mendes falava, com razão: “Podem anular dez eleições, eu continuarei ganhando todas!”

Felizmente a vida é um livro a ser escrito por autores que nem sempre controlamos, e nos meses seguintes alguns fatos mudaram radicalmente a correlação de forças na Escola de Agronomia como poucas vezes na sua história. Em agosto, na Reitoria da UFBA, o Professor Heonir Rocha (com vínculos com Cruz das Almas e aliado do Professor Luiz Mendes) foi sucedido pelo professor Naomar Monteiro de Almeida-Filho e, em outubro, ocorreu a eleição de Lula para a Presidência da República. Com isso, tivemos uma clara fissura na hegemonia exercida pelo professor Luiz Mendes e ele, ao perceber isso, definiu não se candidatar para o novo processo de escolha de Diretor, anunciando o apoio ao professor Alino Santana que passou a ser o concorrente do Professor Valfredo na disputa.

Mais uma vez o nosso pequeno grupo definiu apoiar uma candidatura alternativa, representada pelo professor Warli e começamos a fazer campanha.

No último dia das inscrições, o professor Warli desistiu da candidatura. O nosso grupo definiu que ainda assim nos manteríamos no pleito com um candidato – precisávamos, no mínimo, marcar a nossa posição. Meu nome foi escolhido para representar o grupo. Contribuiu para isso eu ser o mais conhecido da comunidade acadêmica, afinal quinze anos antes eu havia atuado intensamente no movimento estudantil naquele campus e no período após a graduação tinha desenvolvido ações que geravam alguma visibilidade social. Não tive opção. Lembro que a professora Gilka redigiu o requerimento e imprimiu meu currículo – apresentamos o programa de gestão já elaborado para o nosso candidato anterior.

Naquele momento, a Escola estava bem dividida entre os dois candidatos e os setores tradicionais da esquerda mantiveram o seu apoio ao candidato Valfredo – havia um argumento razoável para isso: aquela disputa já se desenrolava há um ano e a minha candidatura foi colocada muito tarde. Eu brincava: “Não preciso de apoio para ganhar, preciso de apoio para governar!”. Com isso, todos ficavam tranquilos. Afinal, era um consenso que a minha candidatura não tinha chance!

Para a surpresa de todos, tivemos uma vitória avassaladora nos três segmentos, sempre com votação acima de 70%. Lembro que alguém do nosso grupo brincou: os novos ventos que sopram no País chegaram ao Recôncavo profundo (“E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo, meu medo”).

Durante a campanha, apresentamos a ideia de transformação da Escola de Agronomia numa instituição independente da UFBA. Eu insisti nessa ideia, mas isso parecia algo distante do debate da comunidade e, mesmo com a ascensão de Lula e o tema da interiorização do ensino federal superior na Bahia estar presente nos pronunciamentos do novo reitor da UFBA, isso não parecia uma temática pertinente para aquele nosso contexto (como abordarei em outros textos, depois aprendemos que essa reação à inovação não é restrita à comunidade da Escola de Agronomia).

É importante registrar que em meio a tantas instabilidades, o Diretor Pró-tempore, Professor Clóvis Pereira Peixoto, foi responsável por uma transição tranquila e transparente, colaborando assim para que o processo de transmissão de cargo ocorresse sem problemas. Um indicativo importante dessa postura foi a sua presença na minha solenidade de posse – fato raro naquela comunidade.

A nossa posse ocorreu na manhã do dia 14 de março de 2003. A percepção política de Geraldo Costa transformou a solenidade num evento memorável. Ele percebeu que era o primeiro grande evento que ocorria no Recôncavo desde a posse do Presidente Lula e buscou transformar esse momento num ato político de apoio ao nosso projeto. Sonia Bahia, esposa do professor Geraldo, esmerou-se em organizar um café da manhã típico do Recôncavo que serviu trezentos convidados. O sabor dos quitutes foi falado aos quatro ventos e por muito tempo. Ainda hoje devemos os custos dessa festa ao nosso professor. A presença de Prefeitos, Deputados e lideranças de toda a Bahia foi uma clara demonstração de que todos esperavam a apresentação de um projeto de impacto naquela manhã e ele veio na forma da proposta de criação da UFRB. A comunidade da Escola de Agronomia assistiu, um pouco assustada, àquilo tudo.

Demonstrando uma intenção que se expressaria na prática nos anos seguintes, o professor Naomar convocou o Conselho Universitário da UFBA que, sinais dos tempos, realizou a sua primeira reunião fora de Salvador. Naqueles três anos que seguimos até o início das atividades da UFRB, o professor Naomar visitou a Escola de Agronomia mais do que a soma de todos reitores da UFBA desde 1967, quando o campus de Cruz das Almas foi incorporado à universidade.

No dia da posse, o Conselho Universitário da UFBA autorizou o Reitor a criar uma comissão com vistas a apresentar o projeto de desmembramento da Escola de Agronomia e a criação da Universidade Federal do Recôncavo. Numa demonstração de compromisso com aquele projeto, Naomar indicou o seu Vice-Reitor, Francisco Mesquita para coordenar a Comissão.

Lembro que dias depois da posse, o pequeno grupo mais orgânico que dava sustentação à Diretoria me chamou para uma reunião. Em resumo, me foi dito que não era possível priorizarmos o projeto de luta por uma universidade naquele momento, precisávamos focar na resolução dos problemas da Escola de Agronomia.

A minha resposta foi no sentido de concordar com as preocupações, afinal a Escola de Agronomia realmente tinha problemas das mais diversas dimensões. Ponderei, no entanto, que as raízes dos nossos problemas estavam na institucionalidade constituída no processo de incorporação da Escola à UFBA e que não conseguiríamos ir longe na busca por soluções das nossas questões naquele arranjo institucional. Naquela estrutura não haveria salvação para a nossa Escola. Precisávamos usar a posição de mais antiga instituição federal de ensino sediada no interior da Bahia (desde 1859) para liderar um projeto de fôlego, afinal, o Governo Lula e o Reitorado de Naomar eram uma oportunidade única que não tínhamos o direito de abandonar.

Nessa noite, houve quem ponderasse sobre a pertinência de lutar por um Centro de Ciências Agrárias ou por uma Universidade Federal Rural da Bahia (UFRB). Felizmente venceu o projeto da Universidade Federal do Recôncavo (UFR).

Definimos naquela reunião que o esforço para a conquista da Universidade passaria a ser o principal eixo da gestão que se iniciava. Eram os primeiros dias de abril de 2003. Estávamos prontos para a luta!

One thought on “AS BIFURCAÇÕES DA VIDA E A ELEIÇÃO DE 2002 PARA DIRETOR DA ESCOLA DE AGRONOMIA

  1. A história acadêmica precisa ser feita com elementos de disputas como estes apresentados. Entendam que não desejo ali.ebtar o embate agressivo nem físico bem filosófico, mas precisa de correlação de forças. Necessário ouvir e ter dois lados, dois projetos, dois pensamentos ou como apresentado até três opções. As múltiplas possibilidades levam a busca pela melhoria, visto que todos vão esperar e não somente apresentar planos de governo ou administracao, também vão gerir pensando no continuísmo do desenvolvimento da academia. E quando se fala em desenvvimento na academia não significa somente recursos. Mas ideias, recursos e projetos.

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